terça-feira, 26 de setembro de 2023

DA ESCOLA ALVOROÇADA

 


Doze anos de escolaridade obrigatória para praticar a indisciplina e obter a diplomada ignorância que habilita qualquer coitado a ser caixa de supermercado – bem melhor seria ir aos ninhos, ou aos gambozinos – faz-nos duvidar que a escola possa ser uma coisa boa. Aliás, a ser uma coisa boa não seria obrigatória.

Ao duvidarmos da bondade da escola, duvidamos também que os professores em guerra contínua e longa com o governo que está como treino para o confronto com o que virá tenham em mente mais do que defender os seus interesses particulares, por muito que invoquem altruísmos de conveniência. De qualquer forma, é para mim uma quase certeza que, grite-se ou não por uma “escola pública de qualidade”, não se vê quem olhe friamente para o que a escola efectivamente é: um cadáver adiado que nem sequer procria, dado que nela e por ela se parte da ignorância para mais ignorância ainda, antes de mais porque se repisa o que foi sem perspectivar o que será. Incentiva-se a interpretação superficial de coisas que não se percebem nem se almeja perceber, estimulando-se a opinião – que não a crítica – sobre ideias que não se conhecem nem se aprofundam.

Enfim.

Muitas vezes fica-nos a sensação de que se organizou o caos no sentido da borga. É, pelo menos, o que parece quando observamos os arraiais indecorosos de aludidos professores que exigem respeito enquanto bolçam impropérios, como se respeito fosse coisa de sentido único.

                                                                                                            Abdul Cadre

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

APOCRIFIA

 

Certamente que apócrifo, todavia interessante, corre entre budistas um texto que aventa as seguintes regras para uma sã convivência social:

1 Abriste? Fecha.

2 Acendeste? Apaga.

3 Ataste? Desata.

4 Sujaste? Limpa

5 Usas? Cuida

6 Estragaste? Repara

7 Não sabes arranjar? Pede a quem saiba.

8 Queres usar o que não é teu? Pede permissão

9 Emprestaram-te? Devolve

10 Não sabes? Não intervenhas

11 É grátis? Não desperdices

12 Não te chamaram? Não te intrometas

13 Não sabes fazer melhor? Não deprecies

14 Não vais ajudar? Então não perturbes

15 Prometeste? Cumpre

16 Ofendeste? Pede desculpa

17 Não te perguntaram? Não opines

18 Disseste? Assume

terça-feira, 28 de junho de 2022

HOJE É O TEMPO EM QUE TÃO MENTIROSO É O QUE MENTE COMO AQUELE QUE FALA VERDADE


A razão de chamarmos aos dias que correm – e faz todo o sentido chamar – tempos de pós verdade, é porque a verdade do que se afirme ou o compromisso que se tome deixaram de ter qualquer importância. Esta situação criou raízes profundas porque ao mentiroso não se imputa qualquer ónus, antes pelo contrário: o povo acarinha os mentirosos que invoca e segue, não ignorando de modo algum que mentem. Aliás, exige que mintam, precisa que mintam para alimentar as ilusões, que são a sua metadona, de que não se quer o desmame. Este é um tempo em que chamar mentiroso a alguém não implica que o seja, tanto faz, a novilíngua veio para ficar e as palavras deixaram de ter significado próprio, são uma espécie de cuspo que se dá na linha do discurso para que entre bem no buraco da liberdade de expressão que vilmente vamos inventando para protelar a nossa requerida inumação.

NESTE LUGAR INSALUBRE

 

As nossas sociedades doentes não são lugares agradáveis para uma vida saudável, despreocupada e feliz. É por isso que todos somos mais ou menos doentes, na dependência directa da nossa resistência.

Fundámos uma cultura baseada no ter e é do ter que pretendemos retirar toda a felicidade e bem-estar, alienando aquilo que em nós é mais humano. Tornámos a vida uma competição de todos contra todos e substituímos as crenças antigas por crenças novas mais ilusórias ainda do que aquelas. Não nos apercebemos sequer que a própria ilusão é uma doença, uma doença da imaginação.


segunda-feira, 27 de junho de 2022

AFORISMOS E DESAFORISMOS

 V.N. 28 Junho de 2021

Eu sou viciado em aforismos, todavia mais nos meus do que nos de terceiros. Quando cito aforismos de outros é por despeito de não ter sido eu a escrevê-los.
Mas neste mundo das redes anti-sociais cita-se demasiado, por vezes deturpado, outras vezes atribuindo a autores de nomeada coisas que eles não escreveram nem escreveriam. Por exemplo, já tropecei dezenas de vezes no erro comum de atribuir a Voltaire aquela frase desconchavada de «eu não concordo com o que dizes, mas defenderei o teu direito a dizeres isso» – tem várias nuanças a frase, mas a ideia é esta – Voltaire não disse isto nem parecido.
Mas há pior: atribuir a pessoa respeitada uma série de baboseiras tipo new age que a pessoa, pensando precisamente o oposto, nunca diria, .
Andou por aqui, pela milionésima vez, aquela frase atribuída a Heraclito de não podermos banhar-nos duas vezes nas águas do mesmo rio. A frase foi mal citada, provindo com certeza de uma deficiente tradução; não referia as águas do mesmo rio, mas o rio. E Heraclito podia ter dito a frase dessa forma, porque ele não queria referir-se ao rio, mas ao tempo. Era uma metáfora para transmitir a ideia de como o tempo flui. Em outra frase diz assim: «Não é possível entrar duas vezes no mesmo rio». A ideia é que o tempo flui, não se detém. Usando tropo similar, diz também: «Nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos», querendo significa o perene devir. Similarmente, diz também: «Para os que entrarem nos mesmos rios, outras e outras são as águas que por eles correm».
Mas quando nos debruçamos sobre o que disseram ou não disseram filósofos que não estão cá para confirmar ou desmentir as frases popularizadas, é bom que tenhamos em conta que não há grandes pensadores sem dizeres paradoxais. Agostinho da Silva assumiu sem constrangimentos quanto o paradoxo pode ser precioso num «livrinho» – não sei se foi publicado – que primeiro chamou de «Reflexões, Pensamentos e Paradoxos», que depois rectificou para «Pensamentos, Aforismos e Paradoxos».
Ele escreveu no aforismo 14: «Ser ou Nada são os dois nomes que dou ao mesmo alguma coisa ou nenhuma, que não tem nome; à qual pôr um nome é sacrilégio».
Eu respondi-lhe assim: «No acto mágico de matar – e possuir pelo nome é matar – é em nós que a magia resulta, e também naqueles que se nos submetem. Pelo nome todas as mortes são possíveis, e assim mesmo a de Deus. Morte actual e não real.»
Façam leituras. De tudo o que leiam nada aceitem, mas que nada vos seja indiferente, ou perderam o tempo com a leitura. O papel aceita tudo. Quem aceita tudo o que está escrito faz de papel, não de leitor.
Façam o favor de não ser infelizes, ou sejam felizes, se forem suficientemente egoístas e inconscientes.
ABDUL CADRE

sexta-feira, 10 de junho de 2022

FAKES, TONTICES E FALTA DE ATENÇÃO.


É minha convicção que os navegadores das chamadas redes sociais, na sua grande maioria, pecam por desatenção, futilidade e vontade de acreditar no que mais jeito dá. No meio de tudo isto, fica ausente o espírito crítico e prevalece o slogan, as ideias feitas e a resposta formatada. Por exemplo: é frequente aparecer no Facebook um post em que, a acompanhar uma foto duma artista de filmes porno (Mia Khalifa) se coloca uma legenda com mais ou menos estes dizeres: «Fulana, aluna do Liceu de Freixo de Espada à Cinta, ganhou as Olimpíadas Mundiais de Matemática e os media nada disseram. Se fosse um futebolista não faltariam os elogios, mas como é uma jovem estudante, ainda por cima da província...».


Isto aparece há vários anos, mais do que uma vez por ano, e não adianta denunciar, é uma febre incurável e recorrente. As partilhas somam-se por muitos milhares. Ninguém duvida daquela idiotice nem repara na mais do que suspeita figura retrata, insuficientemente jovem para andar no liceu, de formas sensuais exuberantes. Ninguém se dá ao trabalho de ir constatar que não existem Olimpíadas de Matemática e que o instituto invariavelmente apontado como organizador não existe. Mas dos comentários, a tónica geral é a da conveniência de atacar o futebol para armar ao pingarelho, reflexo condicionado da formatação recebida. Que hipócritas!

Ora bem: os benfiquistas são 6 milhões (dizem eles), os portistas 3 milhões (dizem eles), os sportinguistas 2 milhões (dizem eles) e esta massa, a totalidade do povo português, para que os referidos clubes não joguem apenas entre eles, apoia uma série de clubes figurantes. Conclusão: os comentários a condenar o futebol são tão falsos quanto o post que vimos referindo. Não sei se repararam, mas estes dichotes acerca dos milhões de adeptos procuram ser irónicos. Eu sei, eu sei que os assanhados do comentário levam tuto à letra e só lêem pela rama, mas paciência.

Por estes dias, depois de já termos visto esta coisa dezenas de vezes, anda a circular nas redes aquela foto esmaecida, para armar ao antigo, colocada agora por um tal Primoz Gosak, com a legenda: «Por favor, ajudem! Encontrei esta foto no chão em frente ao Lidl. Na página de trás diz: "Mãe e pai, 1955". Adoraria devolvê-lo ao seu dono, parece uma foto preciosa. Por favor compartilhem para que possamos encontrar o dono! Obrigado

Interessante é que o original deste tal Primoz Gosak – e vá lá saber-se por que corre em português – está escrito em sérvio e não diz exactamente o que anda a circular. Em sérvio diz: «Prosim pomagajte! Tole sliko sem našel na tleh pred Lidlom. Na zadnji strani piše, " Mami in oči, 1955". Z veseljem bi jo vrnil lastniku, izgleda kot stara in dragocena fotografija. Prosim delite da najdemo lastnika! Hvala.» O Google diz que este arrazoado se traduz assim: «Por favor ajude! A força aérea não está lá. Na parte de trás está escrito "Mamãe e papai, 1955". Para onde quer que você olhe, há uma bela sessão de fotos de arrastar e soltar. Vamos dar um passeio! Obrigado.».

Já viram o despautério?

Mas adiante. Na tal foto esmaecida estão os actores Crispin Glover e Lea Thomson, que na trilogia de ficção científica dos anos 80, Regresso ao Futuro, representavam os papéis de pai e mãe do herói Marty MacFly.

 

Já falámos bastas vezes de uma outra doença facebookista, que é, digamos, o citacionismo – esta inventei agora e não deve confundir-se com situacionismo, que este é o lugar onde o citacionismo acontece, a mania das citações, que até poderiam ser interessantes, se fossem verdadeiras. Einstein, Tesla, Pessoa – eu sei lá! – já disseram tudo e o seu contrário, mesmo sem terem dito.

Há uma frase habitual no citacionsimo muito querida das hostes pseudo-ecológicas que vem sendo atribuída a um chefe índio qualquer, que reza assim: «Quando a última árvore for cortada, quando morrer o último peixe, quando o último rio acabar contaminado, todos verão que o dinheiro não se come». Quem o disse e escreveu foi Alanis Obomsawin, cineasta, pintora e escritora canadiana nascida nos USA

domingo, 22 de maio de 2022

UM ESCONJURO DA 25ª HORA

 UM ESCONJURO DA 25ª HORA

Nós somos os filhos bem-nascidos e bem perfilhados de uma cultura belicista. Antes de mais, porque a guerra sempre foi um excelente negócio e a violência a mais usada apologia da virilidade. São de violentos, em quase toda a parte, as estátuas mais imponentes que enfeitam as grandes praças das grandes cidades. Os pombos, na sua bendita filosofia, dão-lhes o tratamento adequado. As mães, não. As mães, na sua missão de perpetuar os nossos vícios, dizem aos meninos: aquele é que é o tal herói.

Em muitas ocasiões do nosso conturbado percurso histórico se deu razão à sentença «se queres a paz, prepara a guerra», mas nos nossos dias foi-se mais longe: fazem-se guerras ditas preventivas, agravadas pela iniquidade e pela cobardia de serem assimétricas. O preceito, se levado até às últimas consequências, implicará a guerra total de quem se entenda mais forte contra todos aqueles que, sendo fracos, se presuma que possam a qualquer momento se tornar perigosos, o que, em tese, não contempla excepções, porque é uma evidência que todos – indivíduos e nações – somos perigosos. Sempre fomos perigosos. Acresce que a guerra comporta em si o saque, nas suas diferentes nuanças, o que a torna um grande negócio. Foi assim no passado e é hoje mais do que nunca.

Para se fazer a guerra, um pouco de loucura agressiva ajuda muito, mas não é suficiente, porque as guerras fazem-se sempre com vista à rapina e à conquista, coisas demasiado normais no cadastro humano. Precedendo-as e preparando-as é sempre bom arranjar um leque de justificações (necessariamente enviesadas) e apelos moralizadores. Mas sendo hoje o tempo dos pequenos homens, bastam toscas mentiras para arrastar a corte reverberal que nos há-de martelar o bichinho do ouvido até à surdez. Depois, seguem-se os decretos como água benta de limpar todo o pecado e bulas de cocaína para nos adormecer.

Mas, no estágio actual do mundo, e considerando os meios destrutivos que desenvolvemos, se a guerra for levada até às últimas consequências nenhuma nação beneficiará em definitivo dos seus réditos, nenhum indivíduo terminará vitorioso, todos sairemos derrotados: extinguir-nos-emos. Então, conviria tratarmos de ser inteligentes e convencermo-nos que estamos condenados, mesmo que a condenação não seja pelos melhores motivos, a implementar uma cultura de paz e integração do outro e da diferença. Aqui, talvez o nosso medo e a nossa muita cobardia possam tornar-se inesperadas virtudes. Mas se prevalecer a irracionalidade das “virtudes” guerreiras: agressividade, violência, cupidez, desumanidade, talvez estejamos em vésperas de acontecimentos de que nenhum cronista falará, 

sexta-feira, 20 de maio de 2022

DEMOCRACIA OU SUFRAGISMO?

 

Chamamos democracia a um sistema político que tem por base um sufrágio universal e que teoricamente seria o governo do povo, pelo povo e para o povo. Certamente que, de uma forma geral, nos países isentos de chapelada, o sufrágio funciona. É um facto, mesmo que corroído pelos sindicatos de voto e prejudicado pelas manipulações mediáticas. Mas será que a base do sistema justifica o sistema?

Quando se fala disto, logo os que não gostam que se fale disto nos vêm com o Churchill a dizer que "a democracia é o pior dos regimes, à excepção de todos os outros", frase tonta, dita certamente ao fim da tarde, por entre os vapores que ficaram da garrafa de whisky já despejada.

 Note-se que eu me estou a referir a democracia, pura e simplesmente, não a democracias, nem a democracia com qualificativo, como popular, directa, etc.

A democracia, como em uso nos chamados países ocidentais, apelidada muitas vezes de liberal, tem o seu pecado original no apelo ao umbigo e no desprezo pela solidariedade. É essencialmente uma ideologia das classes médias bem-pensantes, muito distante agora da velha consigna LibertéEgalitéFraternité, ideal que não perdeu a validade, antes se impõe, mais do que nunca, apesar do adormecimento que o frenesim liberal provoca nos desejos de segurança e da rendição perante o darwinismo social. Há quem chame a atenção para a dificuldade de conciliação entre liberdade e igualdade, mas a principal dicotomia não é esta, é entre segurança e liberdade, e temos a experiência histórica de quão mal correu a implantação do chamado socialismo real, onde em nome da segurança se perdeu a liberdade e a perda desta teve como consequência a inaplicabilidade da outra.

De qualquer forma, face ao abismo criado entre os muito ricos e os muito pobres nos países ditos desenvolvidos, está escrito no vento que a nossa decadência e o colapso social estão em contagem decrescente e assim, ESTA COISA tão louvada e tão em uso, chamada pelo que verdadeiramente não é, isto que visa ao relaxamento geral e, irreflectidamente por uns, perversamente por outros se nomeia de democracia, esta espécie de culto ao Pai Natal, que eu chamaria de ditadura totalitária do mau gosto e do mau cheiro é a pior das drogas conhecidas. Se ainda houver lugar para a esperança, devemos cuidar – devíamos cuidar – de que não cause habitação irreversível e esperar que a nossa actual dependência não nos seja letal, que venha uma ressaca boa seguida de um nunca mais.

Esta malignidade sub-reptícia e hipócrita de que o deus mercado depende como o caruncho depende da madeira; esta religião que ao mercado incensa, esta magia negra que nos corrói a alma, destrói a liberdade pela libertinagem, a dignidade pelos jogos prostibulares, o pensamento pelo pronto a dizer, a convivência pela robotização, a alegria pelos seus simulacros, pelos reality shows...

... Esta domesticação fanática e auto consentida usa a nossa rendição para criar um sistema ficcional onde os mortos-vivos se alimentam de pipocas e os cadáveres adiados nem sequer procriam, limitam-se a beber da taça das abominações como se cada um – como se todos – fosse a grande prostituta de Babilónia.

 

terça-feira, 1 de março de 2022

VÊM AÍ OS RUSSOS

 

Vendas Novas, 01 de Março de 2022

 

Um acontecimento ou uma qualquer situação é sempre uma consequência; há causas mediatas, causas imediatas e causas remotas, óbvias umas e outras nem tanto. Em termos de relações entre os homens e as nações usar o conceito de culpa, que é coisa demasiado religiosa, como amiúde se faz, é sempre desresponsabilizador de uns para encontrar a inocência de outros, naturalmente que dos nossos, o que nos faz esquecer uma regra básica da dança: para dançar o tango são precisos dois. O presente drama da invasão russa da Ucrânia é também um tango, macabro, mas um tango. Todavia, não se devem confundir as coisas, o par de dança não é a Rússia com a Ucrânia, mas a águia bicéfala e o urso das estepes – USA vs. Federação Russa – que usam a Ucrânia como pista de dança, os primeiros como cabeça-mor do Império Europeu do Ocidente e o segundo como Império Europeu do Oriente. Não será segredo para ninguém que os cristãos russos – a Igreja Ortodoxa – se consideram herdeiros de Bizâncio, o que nos aprisiona na ideia da repetição histórica, ou na analogia com o Império Romano. Roma, como sabemos, morreu de pusilanimidade, Bizâncio por não ter conseguido resolver o magno problema do sexo dos anjos, e os seus reerguidos herdeiros foram tropeçando na História, porque toda a História de Bizâncio é feita de tropeços.

Por mais que seja uma evidência que a Europa vai de S. Francisco a Vladivostoque, nós por aqui, habitantes das terras decadentes, somos reverentes perante quem ainda manda no mundo e as suas gentes lá para os lados da sede do império, no outro lado do Atlântico, e não vamos em bizantices: entre o medo e o desprezo quase sempre o desprezo prevalece, porque nós sabemos perfeitamente qual é o sexo dos anjos.

Criámos uma entidade ficcional e unívoca – os russos – e de modo algum lhes podemos conceder o estatuto de serem como nós, de serem dignos da nossa mesma humanidade. Não são sequer estrangeiros, são alienígenas, mas dos maus. Bebemos sofregamente a propaganda de guerra dos meios de comunicação social para ampliar o nosso vocabulário de repúdio e consolidarmos, como convém à ideologia do Império Europeu do Ocidente, o nosso medo e o nosso ódio e ampliarmos tudo isto gritando: vêm aí os russos.   

 E os russos são o outro, não são europeus, não são cá dos nossos. Este sentimento esteve sempre implícito nas relações do "Ocidente" com os tais russos, fossem eles o Império czarista, a União Soviética ou a Federação Russa; imperou o ódio de cá e o ódio de lá. Nestes três estágios imperiais pelos quais passou a Rússia, sempre um césar governou despótico, fosse ele Ivan, Nicolau, Estaline ou Putin. A palavra russa czar (leia-se tzar), tem origem no étimo grego para césar. 

Na sequência do desmoronamento da União Soviética, o vencedor do concurso de tango – o Ocidente – resolveu isolar o Urso ferido, expulsá-lo da Europa, cercá-lo com uma aliança militar dos bons, dos nossos, contra o outro, o mau, o alienígena. Recordemos que, aquando da I Grande Guerra, também os vencedores decidiram esmagar e humilhar a Alemanha até aos limites da maior das ignomínias e crueldade. O Povo ferido da Alemanha, impotente e engolindo a raiva, esperou (fabricou) um salvador, um redentor, mesmo que um Cristo negro: Hitler. Temos agora uma repetição histórica, mas como a História na verdade não se repete tal-qual, apenas por similitude, o urso ferido está raivoso, mas não é impotente, tem armas atómicas. Também o sofrimento do povo da Ucrânia tem precedentes na História. Quando os USA, na sua guerra semifria contra a URSS incentivaram checos e húngaros para se levantarem contra o Urso os alevantados ficaram sozinhos e foram esmagados. Também a presente guerra dos USA contra os «russos» por interpostos actores é uma repetição. Mais uma vez, incentiva-se e fica-se a ver os cavalinhos de borla.

Olhar o mundo como um filme de cowboys não nos deixa ver claro, ou somos pelos cowboys ou somos pelos índios; aqueles por quem somos são o bem e são os bons, os outros são o mal e são os maus, porque o diabo – e diabo quer dizer aquele que divide – são os outros. Não temos a coragem de entender que não nos dividimos em bons e maus, somos apenas a aptidão ou a inaptidão com que lidamos com a nossa circunstância, e toda a aptidão (ou o seu contrário) se desenvolve ferida pelas nossas ancestrais sequelas da necessidade e do medo, que resolvemos pela agressão ou pela fuga. No caso que nos deve preocupar da guerra USA - Rússia, onde a Ucrânia é apenas o chamariz, seria útil os ocidentais terem consciência do ditado oriental que diz que quando se encurrala um tigre se deve deixar uma janela aberta. Quem se der ao trabalho de analisar o mapa dos territórios onde decorrem os actuais conflitos verificará que a Rússia se sente cercada e afastada da Europa, reduzida à sua situação asiática. Se a Ucrânia pertencesse à NATO a esquadra russa do Mar Negro teria de sair, teria como destino ser desmantelada. O tigre não tem janela por onde fugir, ou melhor, resta-lhe uma fuga em frente e o furor ocidental atiça o tigre o mais que pode.

Quando, seguindo a estabelecida propaganda de guerra, se chamam a papaguear os comentadores de conveniência, que debitam como se fosse ciência, que a guerra na Ucrânia se deve a que o Putin é maluco colocamos um véu no nosso entendimento e podemos dormir descansados, de consciência aliviada. Mas todas as coisas têm duas faces. Se o Putin for maluco, então está desculpado, porque os malucos são inimputáveis; mas se é totalmente racional – e eu acho que sim – é responsável pelo que faz e pelo que manda fazer. Se for assim como digo, duas coisas se podem dar: ou age por necessidades políticas, ou age por razões religiosas. Se forem religiosas, a haver culpa não é dele é do diabo. Penso que é mais realista procurar as razões políticas, e em política não se fala do que é justo ou injusto nem do bem nem do mal, porque a política é apenas uma arte do possível. Temos de perguntarmo-nos: os interesses dos russos são vitais ou não? Se são, fica a pergunta: como se trava uma potência atómica? Se não são, converse-se até esgotar a saliva. Se os ucranianos conseguirem aguentar a resistência à invasão pode ser que o Putin gere anticorpos internos. O pior que nos pode acontecer é termos o futuro da humanidade suspenso do bater de asas de uma borboleta.

Estamos a criar as condições para o suicídio da humanidade, mas pode ser que não tenha qualquer importância. Morreremos descansados porque todos sabemos bem quem são os culpados – nós não somos, os outros são – e assim será dito de um lado e do outro da contenda, enquanto não sobrevier o silêncio.

No grande sobressalto da Guerra Fria que foi a crise dos mísseis em Cuba, uma canção de protesto de Tom Lehrer dizia «Quando nos formos, vai toda a gente, todos cheios de um brilho incandescente.»

 

 

UMA VERDADE INCONVENIENTE

 

Este artigo foi colocado em 20 do Fevereiro, no Facebook, como comentário a uma postagem de um amigo. Coloca-se agora aqui para o associar ao artigo escrito hoje sobre este mesmo assunto, que colocarei aqui também.

https://www.facebook.com/abdul.cadre2?comment_id=Y29tbWVudDo0ODk1ODY5NjU3MTI1OTEzXzQ4OTc2OTk2NDAyNzYyNDg%3D&__cft__[0]=AZX6tzuzKudtPKPLMmEnWeXr2A2OK3SxasMzfzJG1vQtgBUMCTNpLziSzwjYPrNr-OVJSLp3eOhjLpplGjPIfejLm33hJwfwlwRdFwjR7C840lFHeIaq9YkTa0TwnbKs-f8kc2BoG4RznUpslsBv7MLppS9qA5vuCsC4bGm_dKrSKg&__tn__=R]-R


 Nesta chamada guerra da Ucrânia, a ideia estratégica da geopolítica ianque é expulsar definitivamente a Rússia da Europa, definindo a sua fronteira na Ucrânia. É a continuação do cerco na sua fase final. Economicamente, visa encarecer o petróleo e substituir-se à Rússia no fornecimento de gás; vender à Ucrânia e aos países peões do lime material militar em quantidades colossais, como esperam sequiosos os homens do complexo industrial militar. Aos americanos, o que poderá falhar é não poderem ocupar, através da NATO, a Ucrânia, mas isso é apenas um pormenor de somenos, porque se os russos o impedirem por acção militar, o Império Europeu do Ocidente decretará sanções. Ora, nos USA, temos o presidente mais imbecil de toda a sua História, ainda por cima desbocado. Por exemplo, permitiu-se dizer que a primeira sanção contra a Rússia seria fechar-lhe o gasoduto. Um jornalista ainda lhe perguntou: mas como? O gasoduto não é russo, é alemão. E ele retorquiu: nós fechamos, nós fechamos. No desbocar teve ainda melhor uns dias antes, quando disse que a Rússia seria expulsa do sistema bancário internacional de pagamentos. Este idiota não percebe que num caso desses não eram só os russos a ser expulsos, era o mundo inteiro. O idiota tem neste momento as piores sondagens de todos os presidentes e o Trump esfrega as mãos com o regresso à Casa Branca garantido. O idiota quis ser como os outros presidentes que quando as sondagens andavam em baixo arranjavam uma guerra, mas não percebeu que tinha de ser uma coisa de vitória garantida e povo a bater palmas. Podia bombardear Cuba, ou Venezuela, mas aí não se gastariam balas em quantidade suficiente, além de Cuba não ter qualquer interesse estratégico ou económico e a Venezuela estar bem como está: serve os interesses ianques do aumento do preço do petróleo com a vantagem de comprarem o da Venezuela ao preço da chuva na candonga. Se não puserem bom senso na cabecinha senil e as águias que o aconselham não encolherem as unhas, o mundo vai passar um mau bocado, no mínimo, porque no máximo não quero pensar. Vamos ver que a Covid foi uma coisa sem importância. Isto de empurrar os russos para os braços dos chineses não lembra ao careca. Então, dentro em breve, presumidamente, vamos ter na direcção do mundo o mandarim Xi Jimping, o Czar Putin e o Cowboy de Wall Street Donald Trump.


sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

EIXO DO MAL

 

Ter de quando em vez opiniões desconchavadas, vá que não vá, é da natureza humana, mas militar no desconchavo é bizarria. O moderador do programa devia ter sempre à mão um ambientador, mesmo que comprado na loja do chinês, para fazer fistfist às redundâncias redondas redondinhas circulares e extensas jorradas como sentenças urbi et orbi, todavia raramente interessantes. Ó Dona Clara, não há pachorra.

Vontade de ter razão todos nós temos, mas nem todos têm vaidade suficiente para a insistência na inconsistência. Schopenhauer escreveu a propósito um belíssimo ensaio, publicado postumamente, «A Arte de Vencer uma Discussão Sem precisar de ter Razão», obra que talvez fosse útil à Pluma Caprichosa ter na mesa de cabeceira. Todavia, penso que a filosofia que mais falta lhe faz é a de «Prognósticos só no Fim do Jogo», criada pelo filósofo plebeu e não académico João Pinto, ex-profissional de futebol. Sei perfeitamente que futebol e futebolistas não são do campeonato da Dona Clara, que será mais da canasta, dos guardians e quejandos e que o dito cujo não é inglês nem americano, será Claramente duma casta desprimorada, mas que se lhe há de fazer, temos de viver com aquilo que temos, não é?

Mas vejamos: a Dona Clara, em 27 de Janeiro, dizia «Costa sua de pânico porque sabe que pode estar a pouco tempo de perder tudo», mas quatro dias depois, em 31 de Janeiro, sentenciava com a sua proverbial pesporrência: «a maioria absoluta era inevitável». Está a ver, está a ver, devia prestar mais atenção à plebe, realmente, prognósticos só no fim do jogo.

O mais sensato interveniente no programa, Pedro Marques Lopes, anda a perder o Eixo. Aquela de dizer que o Canadá é o maior país do mundo não lembra ao careca, como diria o tal que ele tanto aprecia e elege. Objectiva e irrefutavelmente não é. O maior país do mundo em extensão é a Rússia, o Canadá pouco passa de metade. Ou seja, a diferença é tal que não dá para ignorar.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

PEDRO V.S. MAXIMILIANO

 

Os monarcas Pedro e Maximiliano são praticamente contemporâneos: o imperador mexicano nasceu em 1832 e morreu em 1867; o rei português, outorgante da carta constitucional da monarquia portuguesa de 1826, nasceu em 1798 e morreu em 1834.

Imediatamente a seguir à morte de D. Pedro IV, a Câmara dos Pares aprovou uma proposta de o homenagear com a construção de um monumento. Entretanto, em 1836, o Rossio mudou de nome, passando a chamar-se Praça D. Pedro IV e a cidade de Lisboa viu-se perante três modelos de monumento, o mais deslumbrante dos quais previa a construção de uma pirâmide onde seria alojada a urna do rei, mas que não foi aprovado nem construído. Veio a ser aprovado um projecto e iniciada a construção de algo que o povo baptizou de «galheteiro», coisa tão contestada que acabou demolida em 1864.

Fez-se então um concurso internacional e, das dezenas de propostas recebidas, o júri optou por uma estátua a encimar uma coluna e a equipa francesa dos artistas Rodert e Davioud foi a escolhida, É aqui que vai começar a lenda – ou história verdadeira, quem sabe – porque estes artistas tinham ganho um concurso para coisa semelhante para o Maximiano, estando a estátua de bronze deste praticamente acabada. Ora, acontece que a monarquia mexicana é derrubada violentamente e Maximiliano é fuzilado em 1867. Seria um desastre económico para o atelier francês, mas certamente os artistas conheciam o provérbio português de que é no aproveitar é que está o ganho, e assim, ao que parece, com uns pequenos retoques Maximiliano Tornou-se Pedro IV. E pronto, em 1870 inaugura-se, debaixo de muita polémica, a estátua que ainda hoje está no mesmo sítio. O mais inconformado com o monumento Eça de Queiroz, escreveu: «Essa colossal vela de estearina, cujo pavio é o dador da carta».

Verdade? Ou isto foi na época uma teoria da conspiração à portuguesa?

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

 

LABOR DAY

 

  Quase todos os países que comemoram o dia do trabalhador fazem-no no Primeiro de Maio, mas nos USA e no Canadá, poe exemplo, a efeméride tem lugar na primeira Segunda Feira de Setembro...

Mas não é disto que venho falar, embora tenha sido isto que me inspirou.

Andou pelo Facebook há dias e corre na NET há anos uma daquelas frases que se atribuem a Einstein e que, com um pouco de atenção, concluiríamos da impossibilidade de ter sido proferida ou escrita pelo famoso cientista. A frase rezava assim: «O único sítio onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário». Ora, quem saiba que Einstein, dominando muito mal o inglês, escrevia invariavelmente em alemão, sua língua natal, constataria do sem sentido da frase, porque trabalho (Arbeit) vem antes de sucesso (Erfolg). Todavia, se de algum modo se quisesse expressar em inglês, ser-lhe-ia mais fácil recordar-se – lembremo-nos do Labor Day – da palavra «labor/laborer», que no dicionário vem antes de «success», do que de worker, para mais sendo este termo designativo mais propriamente de operário. Ponhamos aqui um parêntesis: as palavras labor/laborer são em inglês dos USA, que no padrão britânico se escreve labour/labourer. Isto para remeter os leitores para o nosso «aborto ortográfico».

Mas vamos ao Einstein e consideremos a priori da impossibilidade de ter escrito a coisa. Então, poderíamos aventar a hipótese de ter sido brasileiro ou português que lhe pôs na boca (ou na caneta) o que o homem não disse nem pensou.

Falar disto não serve de nada, eu sei. Estas frases vieram para correr e são eternas, são vírus e não há vacina. As frases falsamente atribuídas a Einstein são tantas, tantas que motivaram livros quer de denúncia quer de persistência na falsidade. Certamente que os que persistem na falsidade vendem mais.      

quarta-feira, 30 de junho de 2021

LEGENDÁRIO ESSENCIAL ROSACRUCIANO

 Este meu livro, de temática rosacruciana está de novo à disposição dos leitores

https://publish.bookmundo.pt/books/249698


Webshop do autor

https://publish.bookmundo.pt/abdulcadre

segunda-feira, 15 de março de 2021

 

ESTRELA NEGRA A PAIRAR

 

Lary Lachman, no seu recente livro com o título em epígrafe, entre muitos pressupostos envolvendo o «Pensamento Novo» – na literatura popularizada é dito novo pensamento –, a Teoria do Cos, o realismo fantástico e o milenarismo, recorre também a Jung e às suas teorias da sincronicidade e dos arquétipos, e aqui sou particularmente tocado, pois é a partir destes aportes Junguianos que tenho desenvolvido a ideia de que os grandes ditadores, com relevo sobretudo para os carismáticos, são invocações das massas populares.

Neste referido caldo, Lachman fala-nos da materialização das formas-pensamento que são conhecidas nos meios esotéricos como egrégoras, assunto este largamente explanado por Blavatsky e de leitura um pouco mais incisiva ainda em Dion Fortune, que nos falou como essas formas-pensamento podem ser usadas para ataques psíquicos (e mesmo físicos).

Estes elementais, a que a mentalista e viajante Alexandra David-Neel chama tulpas, podem apossar-se do seu próprio criador e, por maioria de razão, daquele que se quer usar.

Lachman, mais inclinado para a possibilidade de serem os ditadores, consciente ou inconscientemente, a criarem os seus tulpas, que deles logo se apoderam, a páginas tantas interroga-se assim:

«Será o próprio Trump um tulpa ou egrégora, gerado pela sua base de apoio?»

A minha resposta é que é essa a minha convicção, seja o Trump, seja o Estaline ou o Hitler., salvas as devidas proporções, evidentemente.

Há muito tempo que eu me debruço sobre esta capacidade psíquica e desenvolvi a ideia de os líderes – não confundir com capatazes e vulgares tiranetes –, para o bem e para o mal serem o resultado dos desejos dos seus seguidores e apoiantes. Os tiranetes limitam-se a tirar vantagem da cobardia e espírito gregário dos que se submetem; os líderes carismáticos, os grandes ditadores são fruto da invocação das massas, são tulpas poderosos construídos sobretudo pelo pior que há nas massas, e a energia mais eficaz para a edificação de um tulpa é a dos instintos primários dos seres humanos.

Pergunta-se, não haverá tulpas benevolentes criados pelas massas?

Em teoria, sim. Pensemos na egrégora Jesus, criada pelos crentes visando a protecção e o amparo de todos e de cada um, mas chegado a um certo nível energético tornar-se–á autónomo, mas não tão autónomo que não possa assimilar o ódio dos seus criadores, como aconteceu em épocas negras. Como os invocadores se dividem, a egrégora passa a ser multifacetada, plural, enfraquecendo. A parte mais animalesca das massas tem um poder de invocação maior do que a mais evoluída e a apatia da maioria facilita o trabalho nefasto das forças ctónicas.

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

FACTURAR

Nascemos de borla e toda a vida é feita a pagar as facturas do destino, seja o destino aquilo que for, determinado ou em construção. É assim com os indivíduos, com os grupos, com as nações, com a humanidade. É assim porque não pode ser assado, como diria o César Monteiro.

Não é preciso ser filósofo, psicólogo nem sociólogo para entender o modo de ser do nosso povo: está tudo no Pátio das Cantigas. Portugal é um pátio das cantigas e o Evaristo casa a filha com o marçano só para os outros não se ficarem a rir.

Os mais avisados, aqueles que não tendem a fazer «mééé», devem perceber que há sempre uma factura por pagar. Por exemplo, quem se ilude paga a factura da desilusão. Então, é de bem-avisado nunca nos iludirmos, e não escapamos à conta substituindo uma ilusão por outra.

As pessoas sensíveis estão muito tristes com a ascensão do carroceiro chegano, mas, se não fossem susceptíveis a iludirem-se, saberiam que atrás da orelha de cada português há um Salazar que sussurra. Isto não seria grave, se não ligassem ao sussurro. Haverá, porventura, quem não tenha ouvido no espaço público bolçar vómitos do género: «o que aqui faz falta é um Salazar»?

Quem nunca ouviu é porque é muito desatento; eu cheguei a ouvir: «isto só lá vai com dez salazares, que um já não chega».

Mas conto-lhes um segredo – que já não é segredo porque o tenho escrito muitas vezes – O Salazar nunca existiu e o chegano Desventureiro também não existe. Para entenderem melhor o que quero dizer, é aconselhável visitar (ou revisitar) a teoria dos arquétipos, de Carl Jung. Também ajudará perceber a psicologia de Gurdjieff.

Salazar é, pois, um arquétipo que um grupo de pessoas pode invocar, sintonizando-se com uma dada forma de ser. Os religiosos que não fiquem ofendidos, mas quando se retira dos Evangelhos que Jesus teria dito: quando vos reunirdes em meu nome eu estarei presente, é também disto que estamos a falar. Em termos metafísicos e teosóficos digamos nós que Jesus e Salazar são «elementais», isto é, habitantes da nossa mente. Os nossos sentimentos – sejam baixos ou elevados – são susceptíveis de materializações; quando em invocações colectivas podem ser observados, e os participantes desse ritual ficam despidos de individualidade, podendo ser conduzidos para actos animalescos, actuando como as abelhas que julgaram em perigo a sua colmeia.

Dizia Gurdjieff que só dez por cento dos humanos se encontram despertos, concluindo que os outros noventa por cento estariam adormecidos, mas aqui eu acrescento um ponto: há outros dez por cento que acordaram o demónio que há em si; não despertaram nem são susceptíveis de o ser. Estes, em termos religiosos, dir-se-ia que entregaram a alma ao demónio; são escravos do id freudiano, regem-se pelo princípio do prazer através dos mais baixos instintos, chegando a sentir prazer na dor que produzem e inclusive na que sofrem.

Estes dez por cento de filhos do pesadelo – e a percentagem será mais ou menos esta em toda a parte – tendem à actividade ruidosa e agitada das colmeias e dos formigueiros.

Se forem dez por cento, o partido dos cheganos tem ainda muito por onde crescer em termos eleitorais, basta que o seu arquétipo, o seu elemental lhes fale alto e bom som ao pior que os habite.

Havia um pastor que tinha dois cães. Um era uma fera terrível, o outro uma doçura. Não os podia juntar. Mas ele sabia que podia resolver o problema, bastava não alimentar um deles; se os juntasse, então, a fraqueza de um seria a vitória do outro.

sábado, 6 de junho de 2020

A PROPÓSITO DE SER CRISTÃO

"(…) Claro que sou cristão, e outras coisas, por exemplo budista, o que é, para tantos, ser ateísta; ou, outro exemplo, pagão. O que, tudo junto, dá português, na sua plena forma brasileira. (…)"

- Agostinho da Silva

É evidente que Agostinho da Silva tinha toda a autoridade moral para se dizer cristão, sendo que sê-lo não impediria a sua liberdade para tudo o mais que quisesse ser. Dizer-se católico – de cuja comunidade fora excomungado – é que seria mais paradoxal, já que o catolicismo implica (exige), mais do que qualquer outro culto, a exclusão, afirma-se pela exclusão: o nós temos a verdade e os outros vivem na mentira. Foi esta arrogância, este fanatismo que, por exemplo, esteve na base da nossa expulsão do Japão. Portugal, ao longo da sua história, raramente conseguiu uma correspondência frutuosa entre o povo comum e as suas elites, questão infinitamente agravada em relação às classes dirigentes. Ontem como hoje e hoje bem mais grave do que nunca. Atenção que eu digo correspondência frutuosa, não digo falta de correspondência. Por exemplo, o Salazar, que não veio de Marte (penso eu), bem vistas as coisas era um arquétipo de um certo modo de ser português. A versão decadente e democrática deste arquétipo – e por ser democrática é plural – transparece em três promotores desta apagada e vil tristeza: Cavaco Silva, Passos Coelho e Paulo Portas, a troica da troica.

Agostinho da Silva, encarado como o arquétipo daquilo que o português tem de melhor, tinha do nosso povo uma esperança saudosa que talvez não levasse em conta o que a miséria pode fazer ao povo de uma nação. Não digo a pobreza, digo a miséria.

Uma das coisas mais interessantes de verificar é que, sob o ponto de vista religioso, o povo comum tem-se mostrado invariavelmente pagão e politeísta, com especial culto à Deusa-mãe, culto este ocultado sob o disfarce de culto mariano. As elites não. Estas, apesar de serem acentuadamente estrangeiradas, materialistas e ateias, sempre usaram a religião oficial sob dois aspectos relevantes: atestado de bom comportamento moral e arma ideológica de dominação e privilégio. Como exemplo paradigmático temos aquele banqueiro do aguenta-aguenta, que se afirmava católico, não sei se através dos bem abençoados pobres de espírito se da história do camelo que passa no buraco da agulha. E tem também aquele gordalhudo do não há almoços grátis, que se afirmava militante católico e usava o seu caritatismo para perorar alto e bom som que os reformados andam para aí a fingir que eram pobres.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

O COVID É UM BICHO MALINO

Eu sei, eu sei que o Covid não é um bicho, é uma coisa assim-assim, que não é carne nem peixe. Seja lá o que for, pica no umbigo e desperta nas pessoas o que elas têm de pior e de melhor. Desperta a solidariedade, que é muita e desperta o egoísmo, que é imenso. Mas desperta também coisas bem mais doentias, como a raiva e o desprezo pelos outros.

Mas os maus sentimentos, no tempo do politicamente correcto, disfarçam-se o mais que se pode de saberes que se não têm e faz-se de conta que sim; de juízes de intenções, em que os outros têm só defeitos e nós apenas qualidades. Por isso, esta gente de carácter diminuído arranja bodes expiatórios para as suas frustrações e azedumes. Normalmente os que estão mais à mão são os políticos e as pessoas que têm de tomar decisões de protecção social.

Um destes azedos postadores de dizeres de falsas sapiências dizia por aqui: querem submeter-nos, obrigando-nos a usar máscaras, roubar-nos a liberdade, porque a máscara não serve para nada; são incompetentes e querem é dar dinheiro a ganhar aos laboratórios. Esta gente não se apercebe que quando fala assim é como se estivesse estendido no divã do psicanalista confessando as linhas que tecem o seu carácter. O seu mau carácter.

E há muita gente a berrar: então se as máscaras protegem, para que é o distanciamento social?

Eu fazia um boneco para lhes explicar, mas se calhar nem mesmo assim percebiam. Digam lá, têm algum método eficaz para partilhar connosco ou só se sentem bem dizendo mal. Tenham cuidado, não mordam a língua.

Eu sei de um método que acabava com a pandemia e exterminava o vírus sem medicamentos, sem vacinas e sem a tal imunidade de grupo. Congelava-se toda a humanidade – mas mesmo toda – durante um mês, tudo paradinho como se tivesse chegado o fim do mundo e pimba, matava-se o bicho, porque ele só vive se tiver quem o alimente e transporte.. Aqui tenho de dar razão aos maledicentes: os malandros dos políticos não me querem ouvir, são uns incompetentes. Quem não faz aquilo que nós imaginamos que é bom é porque é mau, incompetente e tudo o mais que se diga, porque é preciso é dizer coisas, mesmo que sejam muito estúpidas. E qualquer um de nós, desde que tenha telefone ou computador e ligação à NET é um sábio potencial com capacidades ilimitadas de chamar nomes feios aos outros, principalmente aos políticos de que não gostamos, porque os cá dos nossos são uns gajos porreiros.

Então – e isso é que importa – as máscaras servem de protecção ou não servem? Servem e não servem. Depende. Só há segurança absoluta no distanciamento social, não tocando no que quer que seja que tenha sido tocado por outros, o que é praticamente impossível. Usar máscara e coçar o nariz com os dedos infectados no manuseamento de objectos é tiro e queda. O mau uso da máscara pode até ser um factor prejudicial, mas a máscara é essencial em espaços fechados, e estes espaços devem ser higienizados e ventilados permanentemente. A máscara não visa a nossa protecção (só em parte), mas sim a protecção dos outros, não contaminarmos os outros. Mas o mais importante é não andarmos à molhada. Não é preciso fazer um boneco… ou é?

A TRETA DA SUBMISSÃO PELA MÁSCARA E IDIOTICES CONGÉNERES

Vou partir do princípio que alguns – e apenas alguns – daqueles que barafustam contra as máscaras anti contaminação são pessoas honestas e que fazem isto por se encontrarem assustados e frustrados com a presente situação pandémica. Mas não lhes desculpo serem macacos de imitação dos conspiranóicos e das milícias digitais que sabem bem o que fazem de mal.

Portanto, isto que aqui digo é só para alguns, para os honestos, porque os idiotas, doentes de conspiração e militantes digitais para um mundo pior merecem apenas o meu repúdio e o meu desprezo.

O argumento de que a máscara social é um factor de submissão inserido numa estratégia tenebrosa, se saído de um sentir autêntico é sintoma que precisa de atenção psiquiátrica. Mas, quando consultarem o psiquiatra, façam o favor de deixar em casa, ou deitarem fora, o telemóvel que usam para bolçar essas aleivosias. Haverá maior submissão, mais do que pagar impostos? Não paguem impostos. Haverá maior submissão do que respeitar os sinais de Trânsito? Haverá maior submissão do que ter de pagar multa por estacionar em cima do passeio? Não respeitem, não paguem. Haverá maior submissão do que respeitar as leis? Não respeitem e, já agora, façam o favor de ir para uma ilha deserta, se houver ilhas desertas sem rei nem roque.

Quem vive em sociedade adere a um contrato social de aplicação genérica que não se desenha à vontade do freguês. Esta adesão implica direitos e deveres. Os deveres, evidentemente, diminuem as liberdades e estas diminuições são compensadas pelos direitos, que são reformulações das liberdades e alicerces da segurança.

Esqueceram estas coisas básicas que terão aprendido no secundário? Bom, se nunca andaram na escola estão perdoados. Estou a ouvi-los perfeitamente, não resmunguem, é evidente que a escola é submissão, paciência, os malandros que a inventaram não querem que tenhamos a liberdade de nos submetermos à ignorância, e a ignorância é o nosso direito de sermos macacos. E a despropósito: já fez a sua tatuagem hoje? Ontem vi um filme de cowboys e estavam uns tipos com uns ferros em brasa a tatuar gado.

E se em vez de submissão víssemos a máscara social como um sinal de respeito pelo outro? Só não respeita o outro quem nasceu com o rei na barriga e olha o seu umbigo como o centro do mundo.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

DO DESCRÉDITO

Faz parte da lógica deste tempo que vivemos e que apodrece que coisas criadas com razões para se prestigiarem depressam sigam esse apodrecimento geral, seja na arte, na cultura, na política, na economia, e mesmo em institutos tão basilares da sociedade quanto a família.
É por isso que a comunicação social é o que é e a contracultura comunicacional é ainda pior. Neste campo, as chamadas redes sociais, que melhor seria chamar-lhes anti-sociais, pese embora o seu aspecto caótico, são instrumento eficaz para a normalização dos povos pelo mais baixo possível. Este envilecimento dos costumes, do conhecimento e da dignidade comportamental faz-se, sobretudo, pelo apelo aos instintos primários e pela ridicularização da inteligência. Por exemplo, ser etiquetado de intelectual é desprestigiante, ser honrado é ser idiota, dizer que algo visto na NET é falso, está errado ou é estúpido, é termos a mania. Queres saber mais do que a NET? Perguntam os ignorantes cibernéticos.
Da corrosão de certas instituições, seja da ONU, seja das academias, seja dos comités Nobel, e outras antes prestigiadas organizações muitos terão dificuldade em admitir, darão o benefício da dúvida. É difícil olharmos para o Nobel da Paz, por exemplo, e dizermos que as suas escolhas são isentas, mas os mais críticos não têm dúvidas em afirmá-lo. Talvez a maioria das pessoas para quem o nome Gandi tem o significado de paz, de pacifismo, de não violência não saiba que o nome de Gandi foi proposto cinco vezes para o Nobel da Paz e todas as cinco vezes foi recusado. Quem é que já reparou que dos cerca de 200 premiados – 89 homens e 16 mulheres – 22 são dos USA e 10 do Reino Unido?
O primeiro premiado com o Nobel da Paz foi o fundador da Cruz Vermelha e longe de mim pôr em causa tal reconhecimento. Já premiar Menachem Begin (1978), que pertenceu à organização terrorista Irgun, que chefiava quando o grupo realizou o célebre ataque ao Hotel King David, em Jerusalém, em que morreram 91 pessoas, dá vómitos. Ou não dá?
Mas este não é o único patife louvado, tem lá mais na lista. Por exemplo: Kissinger, uma das figuras mais tenebrosas do século XX, o protótipo do conspirador amoral, responsável pela subida ao poder de Pol Pot e protector do seu regime enquanto isso serviu os interesses americanos; protector, também, do regime de Suharto, que levou a cabo um dos grandes genocídios do século passado, a quase extinção da população chinesa da Indonésia, foram assassinadas 500 mil pessoas; a luz verde à ocupação de Timor, a organização do golpe de Pinochet , etc., etc.
Recentemente, um desses tratantes premiados, a inqualificável Aung San Suuky, dirigente de Myanmar, fazia sair da sua conspurcada boca o que lhe ia na alma apodrecida: que os refugiados rohingya exageravam a dimensão dos abusos que sofriam. Hitler, se fosse vivo, diria o mesmo dos judeus.
O que tem acontecido aos rohingya? Bem, um terço deles nada diz, porque foi exterminado, outro terço fugiu para o Bangladesh, onde o destino é aterrador, o outro terço sobrevive à beira do extermínio. O que fazem os “pacíficos” budistas de Myanmar aos rohingya? Despojam-nos de tudo, violam homens, mulheres e crianças, queimam aldeias inteiras com os habitantes lá dentro. Um terror digno das piores atrocidades medievais
Também há prémios simplesmente ridículos, como a União Europeia e, em 1947, os Quaker americanos e os Quaker britânicos. Não riam, porque em 1979, cedendo a pressões do Vaticano, premiaram o demónio do bem, a fanática e sadomasoquista conhecida como Madre Teresa de Calcutá. Segundo uma médica que trabalhou para a sua seita intitulada Missionários da Caridade, a santinha de pau carunchoso anulava as prescrições de analgésicos porque os doentes precisavam de sofrer e de rezar para ganhar o céu, não de medicamentos para tirar as dores. Este foi o principal motivo da médica deixar de prestar serviço à seita.
A “santinha” fazia relatórios para o Vaticano de autopromoção, com o número estratosférico das conversões conseguidas. Hindus, muçulmanos e budistas, estando moribundos, levavam uns pingos de água benta e ficavam católicos.
Em Nova Iorque, tendo a sua seita sido gratificada com um hospital, as autoridades não permitiram o seu funcionamento. O hospital ficava num sétimo andar e chefe da seita não permitia o uso de elevadores, porque os doentes deviam ir a pé, como peregrinos. Além disso, não permitia enfermeiras, porque ninguém melhor do que as irmãs sabia dar carinho a doentinhos.
Não fiquem desiludidos, para que tal não aconteça, nunca se iludam. E fiquem certos, é mais fácil controlar o coronavírus do que os vapores da decadência moral das nossas sociedades.