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PODÍAMOS CHAMAR a coisa de semana ignominiosa, mas como o tempo não é mau por si mesmo, o comportamento que lhe metemos no bojo é que o será ou não, deixemos o tempo sem culpa e julguemos quem o deve ser. E temo réu que bonde por aí.
Quem não se lembra das acusações que se faziam ao Sócrates, aquele a quem o povo tratava por Socras e o inventor do Passos Coelho (Angelo Correia) chamava Pinto de Sousa?
Alguns dos comentadores encartados, usando e abusando dos meios de comunicação onde serviam os seus partidos, tornaram popular dizer que o ex-primeiro-ministro tinha um problema grave com a verdade. Pobre comunicação social, que tristeza de comentadores enganadores!
Digam-me uma só verdade que o atual primeiro-ministro tenha dito desde a sua campanha de banha da cobra até se apropriar do pote que tanto o obcecava?
Mas o grave agora é que grande parte dos ministros se permite as afirmações mais abstrusas. Ainda há dias, o ministro Vespa da Insegurança dizia, apesar dos números da estatística o desmentirem, que este governo tinha diminuído as situações de pobreza no nosso país. Que grande mentiroso. As situações de pobreza triplicaram desde que este conjunto de liquidatários do nosso país entrou em funções. Por outro lado, o desemprego duplicará em breve em razão das políticas do amigo do peito do Wolfgang Schäuble, o tal que aconselha a que não paguemos menos juros nem tenhamos mais tempo para liquidar as dívidas dos banqueiros que vivem e viveram acima das nossas possibilidades – os verdadeiros autores e beneficiários da dívida externa –, enquanto as pequenas e as médias empresas fecham ao ritmo de CINCO por dia.
Entretanto, Passos diz que passa bem com a impopularidade, indiferente a que todos nós passemos mal só porque ele e a sua pesporrência nos caíram no destino, assim a modos de uma maldição. Um cavalheiro que vai para a televisão dizer que quem quiser escola que a pague e que, desmentido pelo Crato, logo dá o dito por não dito, talvez porque se esqueceu que ainda não foi revista a Constituição: era isso mesmo que estava no seu célebre projeto de revisão, que por sinal encomendou a um monárquico.
Mas o que mais me incomodou na semana finda foi aquela grande indignidade, aquela falta de vergonha e ostentação de enorme cinismo dos deputados – serão mesmo deputados? – da maioria que aprovou um OE «inexequível» com as medidas legais de extinção da classe média e de redução à miséria do nosso povo em geral. Os «deputados» votaram que sim e fizeram uma declaração de voto coletiva dizendo que não. Que despudor. Que vergonha.
Sintomaticamente, simbolicamente, comemorou-se o último Dia da Independência. A dependência está em curso, a miséria em execução a catástrofe segue dentro de momentos…
Vendas Novas, 20 de Novembro de 2012
AO QUE PARECE, somos três em um, como certos produtos da cosmética e da limpeza: o que verdadeiramente somos, o que julgamos ser e o que os outros pensam que somos. Desta última condição resulta que o retrato que nos façam pouco ou nada contribuirá para que nos conheçamos, mas é o melhor meio ao nosso alcance para sabermos quem é e como é o retratista.
Atendendo a tudo isto, bom seria que, sem qualquer inquietação de maior, admitíssemos, à revelia do senso comum, que os homens e as mulheres, bem vistas as coisas, não têm defeitos nem têm virtudes, têm sim características. Por simples benevolência, às características que nos agradam chamamos então virtudes, às que nos incomodam, por costume ou má vontade, chamamos defeitos. Sobra daqui um grande problema: que imperial acuidade nos leva à distinção em que somos pródigos?
E sobre nós, qual a bitola, qual a acuidade?
Quem é que não sabe – quem? – que não se deve confiar em quem nos diga coisas do género: «eu cá sou muito sincero» ou «eu sou uma pessoa muito simples»?
E não é apenas por bem sabermos que ninguém é bom juiz em causa própria, nem por olharmos o louvor de quem a si se louva como vitupério, mas sobretudo porque a psicologia prática nos ensina, por um lado, que do que nos é natural nos não damos conta e, por outro, que quem simples se julga complicado é; depois, que quem se declara sincero, por norma, desconhece o que isso seja. Em contrapartida – se nos quisermos autoanalisar – constataremos que os defeitos que apontamos aos outros nos assentam como luva. Nesta conformidade, talvez devêssemos tomar como princípio que todos os nossos relacionamentos estão sujeitos a projeções e reflexos dum compósito jogo de espelhos. Como não temos capacidade para conhecer o outro por si próprio – tomáramos nós conhecer a nós mesmos! – inventamo-lo à nossa imagem e semelhança, pondo no altar aqueles que amamos e remetendo para o inferno os que nos incomodam. Todavia, não amamos nem odiamos para além daquilo que somos, apenas enaltecemos virtudes imaginadas para a construção da corte que nos conforta e esconjuramos o mal em nós negando ao objeto da nossa raiva ou da nossa má vontade todo o merecimento. Ora, o outro é, para o bem e para o mal, o nosso espelho. Se o quebramos, desencontramo-nos; se lhe pusermos uma moldura, virá o tédio das imagens repetidas roubar-nos a aprendizagem...
Bom seria ver no outro um lago luminoso e transparente. Um lago imenso onde os céus se refletem e a nossa emoção se retempera…
Mas talvez seja pedir demais.
Vendas Novas, 5 de Novembro de 2012
PROVAVELMENTE, foram demasiadas as vezes em que eu disse neste mesmo espaço que não existe passado nem existe futuro, tudo é o presente e que o presente se esgota no preciso momento de o dizer. Com o presente construímos memórias e esquecimentos e alimentamos desejos, esperanças e expectativas.
Isto era assim até à chegada dos estrangeirados que o povo colocou no cavalo do poder. Tenho de rever tudo aquilo em que vinha acreditando. Eu sou de mudança, não só porque alguém disse que só os burros é que não mudam, mas sobretudo levando a sério o célebre gnoma pessoano de que as pessoas inteligentes, tal como mudam de camisa também deviam mudar de opinião. Sendo eu asseadinho, não me ficaria mal ser igualmente inteligente.
Por estas e outras razões, que ninguém espere que os estrangeirados que estão no governo mudem; bom é entender-se que todas as nações foram fundadas por homens que apenas sabiam assinar de cruz e afundadas às mãos de peritos em folhas de Excel e outras extravagâncias.
Seria interessante, não fora o tanto feder, atentar-se nisto: os estrangeirados da nossa memória, isto é, do passado, foram odiados porque estavam à frente dos pensamentos, palavras e obras dos seus compatriotas; os atuais são-nos repulsivos pela sua crueldade, selvajaria e arrogância e por se terem colocado a si próprios a missão de inverter os relógios e os calendários. Eles estão apostados em levar-nos de volta ao 28 de Maio.
E tudo se passa como se nada se passasse, para além da miséria dos mesmos de sempre, que cresce para além do impensável.
Uma imprensa de recados, recadinhos, chuva no molhado e fait divers. Uma televisão preocupada com o sexo dos anjos e a substância das asas angelicais, ocupada permanentemente pelas mesmas caras – sempre as mesmas caras – de replicadores daquilo que convém dizer para que o povo ande de mansinho pelas ruas, que nós não somos gregos, já se vê.
Tão subtil que era o Marcelo, tão maquiavelicamente inteligente que já foi, tornado agora apenas mais um detergente que lava mais branco e deixando-se ultrapassar em alcovitice pelo dispensável sabão de borras de azeite daquele senhor que está como comentador da 24, mas que nada comenta, é apenas porta-voz do moribundo grupo de estrangeirados a que chamam governo. Que contentinho que ele estava a falar dos cortes FMInescos e tecníssimos em primeira mão, isto é, em primeiro desbocamento. Dentre em breve, o homenzinho, para falar desses tais moribundos que então serão cadáveres, será uma voz do além, um médio de incorporação ou coisa assim.
Cuidado, porque as mesas de pé-de-galo são muito imprevisíveis.
Vendas Novas, 23 de Outubro de 2012
QUANDO trabalhar significa sermos conduzidos à miséria e votar é escolher quem nos vai ao bolso, é o regímen, por mais juras democráticas que faça, que se encaminha para a total deliquescência, enquanto o passado que se vinga do presente.
Quando o moralismo substitui na política a justa gestão da riqueza da nação e o justo arbítrio dos interesses para a salvaguarda da coesão social por apelos ao sacrifício redentor, temos uma nova religião instituída que prescinde do céu e nega qualquer recompensa aos bem-comportados.
Quando é assim, o povo deixa de ir à missa e só paga o dízimo sob tortura. Deixa de distinguir Deus do Diabo.
Mas o povo merece isto, porque o povo merece sempre aquilo a que não se opõe. Mesmo que muita gente grite nas praças das cidades, a maioria não grita, fica em casa a embirrar com a família, ou faz promessas aos santos dos velhos hábitos de esperar, porque cada um sabe de si e só deus sabe de todos.
Por maus hábitos e muita desatenção, os que esperam dos céus o que os céus não podem dar, veem que aqueles a quem batem palmas enricam e que quem mais aplaude mais empobrece.
Não é uma maldição dos céus, é a justa paga da apatia; injustos seriam os céus se se deixassem comprar por quem rasteja e acende velas, como quem mete cunha a autarca bonacheirão.
Dar ao pedal é que é, para que a bicicleta se mova. Caso contrário, é esperar que o D. Sebastião desembarque para nos salvar. Não sei é como, pois deve estar bastante desconjuntado de ossadas.
Ou isso, ou vir gente armada até aos dentes partir-nos os dentes e dar a cada um meia sardinha.
Vendas Novas, 8 de Outubro de 2012
DIZEM os populares que «o que tem que ser tem muita força», o que implica acreditar no determinismo. Dá-se até o caso de astrólogos e adivinhos dizerem que o destino está escrito nos astros, talvez por respeitarem mais os calhaus, que são os astros, do que o espírito, a vontade e a imaginação dos humanos e dos deuses.
Eu, que me habituei a acreditar que para quem crê no presente todos os destinos e todos os futuros são possíveis, por vezes fico perplexo.
Há muitos anos, conheci uma jovem que, escorregando no passeio duma rua da antiga Lourenço Marques, fraturou uma perna, coisa que acontece a muita gente. Levada para o hospital, foi engessada – coisa normal – e nos dias que se seguiram não sossegou com dores. Dores cada vez mais fortes e no hospital a dizerem-lhe que estava tudo bem. Depois, começou um cheirinho mau. Foi internada, operada e por ali ficou mais de um mês. Quando teve alta, sentia-se bem e quase não precisava das canadianas para andar. Isto até sair à rua, acompanhada do namorado e dois familiares. Aí, ao atravessar na passadeira, um carro mal governado projetou-a vários metros adiante. Fratura exposta na mesma perna e o hospital ali mesmo à mão. Voltou tudo ao princípio e a perna nunca ficou totalmente boa.
Lembrei-me disto ao ter conhecimento da morte prematura da ex-jornalista Margarida Marante, alguém a quem o mundo e a vida pareciam estender passadeiras triunfais e os fados, um curto-circuito na alma ou lá o que foi quiseram provar que o que tem que ser tem muita força.
Estava a escrever estas linhas e dependura-se-me na pantalha televisiva aquele senhor que tem a mania que é barítono e se atirou ao pote como quem pensa que o mel vai acabar – neste pormenor, provavelmente terá razão –; um senhor que é alcunhado, entre outras coisas, de primeiro-ministro, embora não seja esta a alcunha que o povo mais aprecia. Imaginei-o a dizer: «O país estava à beira do abismo, mas comigo deu um grande passo em frente». Estou ciente e consciente que ele não disse isto. Fê-lo, na verdade, mas não o disse. O que ele disse, não sei, quando ele fala já não o oiço. Aliás, não merece ser ouvido. A única coisa que mereceria ser ouvida era uma confissão pública do mal que fez a este país. Tirar a mão do nosso bolso e ir-se embora é que era.
Tinha acabado de ver o Ministro dos Impostos e, ao meu lado, alguém perguntava: «Porque será que o homem fala tão devagar?». Procurei esclarecer: «Sabe, amigo, não está ali um ser humano, trata-se de um cyborg. Sabe o que é um cyborg? Um cyborg é um ser vivo – chamemos-lhe assim – feito com tecidos humanos, de aparência humana, mas de natureza cibernética…
– Pode ser – voltou o outro à carga – mas por que é que fala tão devagarinho? Pensa que somos todos estúpidos, é?
– Não, amigo, ele fala assim porque está a fazer tradução simultânea. Tem um implante no ouvido que lhe permite ouvir permanentemente as ordens do Wolfgang Schäuble, que foi quem o mandou fabricar, e que é ministro das finanças na Alemanha…
A Alemanha está em vias de ganhar a guerra interrompida com a morte do homem do bigode ridículo. A sua substituta, sem precisar de tanques de guerra, basta-lhe o marco alcunhado de euro, gaseia-nos a todos. Podíamos atropelar a substituta do tal senhor, torpedear-lhe a moeda, despedir os empregados dela que aqui temos, mas não sei porque o não fazemos.
Por mim, faço votos que aconteça à Alemanha o que sempre lhe tem acontecido ao longo da História. Que se prove que o que tem que ser tem muita força.
E que a gente se safe, como é costume. Mas não estou nada, mesmo nada seguro.
NÃO fiquei impressionado, não fiquei extasiado com as colossais manifestações do último sábado, nas principais cidades do país. Mas estou contente. Fico contente, sobretudo, por ter sido uma ação genuína de exercício cívico e democrático num país que o não é. É um dia para recordar, um dia em que até a polícia, contrariando velhos hábitos, se portou com uma correção digna de louvor, mas só isso, o que já não é pouco. Afinal, nem todos descendem da morca.
Mas, para aqueles que esperam grandes mudanças ou o fim da austeridade, pois que esperem, mas sentados, para não cansarem as perninhas. Estamos em guerra civil, uma guerra civil económica declarada pelos poderes fácticos ao mundo do trabalho. Quem se espantou com a intenção dos quatro cavaleiros do Apocalipse – Relvas, Borges, Gaspar e Coelho – de transferirem diretamente dos salários para o capital 5,75%, ao mesmo tempo que o governo determinava juntar ao prejuízo dos trabalhadores uma comissão de 1,25% pelo trabalho que a coisa dá, devia espantar-se apenas com o descaramento, com o despudor. Com esta trafulhice, sem mexer uma palha, só o Belmiro de Azevedo embolsa mais de 20 milhões. As transferências costumavam ser mais subtis. São mais subtis no resto do mundo.
O que é digno de nota, pela originalidade, é que a decisão não foi tomada em conselho de ministros, foi assim a modos de quem gere uma quinta e manda tosquiar os carneiros.
A guerra civil que atrás mencionei começou logo a seguir à derrota da Alemanha, Itália e Japão e teve sempre os seus altos e baixos. Vem daí a concepção de Estado Social e períodos houve em que os trabalhadores lograram obter significativos ganhos. Mas já lá vai o tempo em que, da riqueza criada, 30% era para o capital e 70% para o trabalho. A razão inverteu-se e tem tendência a piorar. Escusam os marxistas de virem carregados de otimismo dizer que a coisa vai mudar e que o capital será derrotado. Marx nunca se atreveu a tal profecia. Não é impossível que sejamos todos transformados em chineses, a fim de sermos competitivos. Já há quem, além de contar a vidinha no Face Book, aceite colocar um chip atrás da orelha.
Já o disse em crónicas anteriores: isto a que se chama crise é um modo de produção bem engendrado. Sem crise não há capitalismo. É o mede que a crise gera que cria a submissão dos povos e faz a alegria dos mercados: descem os salários, sobem os juros, sobem os lucros, rastejam os políticos com fome de lentilhas. É a vida, como diria o Guterres.
Há pouco tempo, numa entrevista, Siza Vieira dizia ter a sensação de estar a viver numa ditadura. Bom, ditaduras são todas as formas de governo em que o povo se demite, ficando muito contentinho se o deixam depositar um papelinho numa urna. Curioso: conheço uma viúva que tem em casa uma urna, onde guarda as cinzas do seu falecido.
O que estamos a viver é um estado de exceção, em que os direitos dos fracos são letra morta e à ganância dos ricos nenhuma lei se opõe, para não enervar os mercados.
Esta sexta-feira está cheia de promessas. Reúne-se o Conselho de Estado a pedido de alguém que – dizem – é presidente deste desgraçado país. Eu não sabia que este país tinha presidente. Vão ouvir o incrível Gaspar, que é uma espécie de pitonisa que nunca acerta nos prognósticos, só nas maldições. Ele não é um ministro, é uma assombração cuja competência (completamente fictícia) lhe foi outorgada por uma imprensa protetora do estado de exceção em que vivemos.
Pode bem ser que, já depois de escritas estas linhas, se tenha consumado o divórcio dos coligados para nos tosquiarem. A missão do tal presidente de que me falaram é proceder à reconciliação, mas é forçoso que sejam desarmados. Se não lhes tirarem as facas, vai haver sangue. É melhor que não se cruzem na cozinha.
Bom seria que o angolano de Massamá voltasse para casa, se dedicasse às farófias e tomasse consciência que não tem vida para isto.
Mas temo que o outro angolano, este de Tomar lhe diga: Força Pedro, continua, tens uma missão e, eu, muitos negócios por concretizar. Atença que eu disse força, não disse forca.
A missão é conduzir-nos à miséria, regenerar-nos através do sacrifício. Uma crucificação. Quando a missão chegar ao fim, o país chegou ao fim também.