quarta-feira, 24 de julho de 2013

PRESIDENTE VS. PRESIDENTA

 

Há o politicamente correcto – que tem a ver com a prática pública da hipocrisia – e há o estupidamente incorrecto, que além de ter a ver com a referida hipocrisia, tem sobretudo a ver com a ignorância militante e o sentido de andar na onda.

Provavelmente, isto aplica-se à generalidade dos povos e culturas, mas como com o mal dos outros podemos nós bem, bom seria preocuparmo-nos com o que a nós, portugueses, diz respeito.

Ora, não precisaríamos de realçar – no entanto faz sempre jeito lembrar – o quanto os palradores televisivos odeiam a língua portuguesa e o quanto, simetricamente, amam o americanês. É por isto que, quando se trata de pronunciar palavras de outras línguas, é vê-los a espremerem-se para americanamente lhes darem uma certa tonalidade de grupo de rock.

Falaremos disto noutra altura. Por agora, como a «presidenta lá dos brasis», quer boas quer por más razões, anda muito destacada nos MEDIA (como se diz em português) – e também nos mídia (como se diz em americanês) – queremos pôr em evidência a descabida controvérsia do presidenta vs. presidente.

As feministas e os feministas pós-modernos adoram dar nas vistas, de modo a que ninguém lhes aponte máculas que ponham em dúvida serem o que dizem ser. É como aqueles que, para não parecerem racistas, ao referirem-se a uma pessoa de raça preta dizem que é africano (ou africana) mesmo que tenha nascido em Coimbra, negando a africanidade aos brancos nascidos no continente que chamam negro, vá lá saber-se porquê.

Sobre a tal coisa da «presidenta», o que me faz dar voltas ao miolo é ter-se posto de moda falar de o poeta e da poeta e a palavra poetisa ter sido arquivada nos esconsos do esquecimento. Coisas. Feitios.

Bom, mas entremos no que importa. Faz tempos, o meu querido amigo e confrade das lides literárias Lauro Portugal remeteu-me um belíssimo texto demonstrativo da incorrecção de «presidenta» e do inverso quanto a presidente. Esse texto perdeu-se por aqui num emaranhado de ficheiros, mas por importante que seria transcrevê-lo aqui, trago uma compensação, um outro texto, todavia menos elaborado, cujo autor desconheço, mas que tem a mesma pertinência.

«A jornalista Pilar del Rio costuma explicar … … que dantes não havia mulheres presidentes e por isso é que não existia a palavra presidenta... Daí que … diga insistentemente que é Presidenta da Fundação José Saramago e se refira a Assunção Esteves como Presidenta da Assembleia da República.

»… Escutei Helena Roseta dizer, retorquindo a comentário de um jornalista da SICNotícias, muito segura da sua afirmação: “Presidenta!”.

… … … …

»A presidenta foi estudanta? Existe a palavra: PRESIDENTA? Que tal colocarmos um "BASTA" no assunto?

»No português existem os particípios activos como derivativos verbais. Por exemplo: o particípio activo do verbo atacar é atacante, de pedir é pedinte, o de cantar é cantante, o de existir é existente, o de mendicar é mendicante...

»Qual é o particípio activo do verbo ser? O particípio activo do verbo ser é ente. Aquele que é: o ente. Aquele que tem entidade. Assim, quando queremos designar alguém com capacidade para exercer a acção que expressa um verbo, há que se adicionar à raiz verbal os sufixos ante, ente ou inte. Portanto, a pessoa que preside é PRESIDENTE, e não "presidenta", independentemente do sexo que tenha. Diz-se capela ardente, e não capela "ardenta"; diz-se estudante, e não "estudanta"; diz-se adolescente, e não "adolescenta"; diz-se paciente, e não "pacienta". Um bom exemplo do erro grosseiro seria: "A candidata a presidenta comporta-se como uma adolescenta pouco pacienta que imagina ter virado eleganta para tentar ser nomeada representanta. Esperamos vê-la algum dia sorridenta numa capela ardenta, pois esta dirigenta política, dentre tantas outras suas atitudes barbarizentas, não tem o direito de violentar o pobre português, só para ficar contenta"».

Ora aí está e bom proveito.

ABDUL CADRE

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

RELÓGIO DE BOLSO

O meu livro Relógio de Bolso, que terá lançamento oficial público no próximo mês, encontra-se todavia já disponível em papel e em e-book no site da editora: 
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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

UMA SEMANA PARA ESQUECER

Vendas Novas, 4 de Dezembro de 2012

PODÍAMOS CHAMAR a coisa de semana ignominiosa, mas como o tempo não é mau por si mesmo, o comportamento que lhe metemos no bojo é que o será ou não, deixemos o tempo sem culpa e julguemos quem o deve ser. E temo réu que bonde por aí.

Quem não se lembra das acusações que se faziam ao Sócrates, aquele a quem o povo tratava por Socras e o inventor do Passos Coelho (Angelo Correia) chamava Pinto de Sousa?

Alguns dos comentadores encartados, usando e abusando dos meios de comunicação onde serviam os seus partidos, tornaram popular dizer que o ex-primeiro-ministro tinha um problema grave com a verdade. Pobre comunicação social, que tristeza de comentadores enganadores!

Digam-me uma só verdade que o atual primeiro-ministro tenha dito desde a sua campanha de banha da cobra até se apropriar do pote que tanto o obcecava?

Mas o grave agora é que grande parte dos ministros se permite as afirmações mais abstrusas. Ainda há dias, o ministro Vespa da Insegurança dizia, apesar dos números da estatística o desmentirem, que este governo tinha diminuído as situações de pobreza no nosso país. Que grande mentiroso. As situações de pobreza triplicaram desde que este conjunto de liquidatários do nosso país entrou em funções. Por outro lado, o desemprego duplicará em breve em razão das políticas do amigo do peito do Wolfgang Schäuble, o tal que aconselha a que não paguemos menos juros nem tenhamos mais tempo para liquidar as dívidas dos banqueiros que vivem e viveram acima das nossas possibilidades – os verdadeiros autores e beneficiários da dívida externa –, enquanto as pequenas e as médias empresas fecham ao ritmo de CINCO por dia.

Entretanto, Passos diz que passa bem com a impopularidade, indiferente a que todos nós passemos mal só porque ele e a sua pesporrência nos caíram no destino, assim a modos de uma maldição. Um cavalheiro que vai para a televisão dizer que quem quiser escola que a pague e que, desmentido pelo Crato, logo dá o dito por não dito, talvez porque se esqueceu que ainda não foi revista a Constituição: era isso mesmo que estava no seu célebre projeto de revisão, que por sinal encomendou a um monárquico.

Mas o que mais me incomodou na semana finda foi aquela grande indignidade, aquela falta de vergonha e ostentação de enorme cinismo dos deputados – serão mesmo deputados? – da maioria que aprovou um OE «inexequível» com as medidas legais de extinção da classe média e de redução à miséria do nosso povo em geral. Os «deputados» votaram que sim e fizeram uma declaração de voto coletiva dizendo que não. Que despudor. Que vergonha.

Sintomaticamente, simbolicamente, comemorou-se o último Dia da Independência. A dependência está em curso, a miséria em execução a catástrofe segue dentro de momentos…

PROCURANDO ALICE DO OUTRO LADO DO ESPELHO

Vendas Novas, 20 de Novembro de 2012

AO QUE PARECE, somos três em um, como certos produtos da cosmética e da limpeza: o que verdadeiramente somos, o que julgamos ser e o que os outros pensam que somos. Desta última condição resulta que o retrato que nos façam pouco ou nada contribuirá para que nos conheçamos, mas é o melhor meio ao nosso alcance para sabermos quem é e como é o retratista.

Atendendo a tudo isto, bom seria que, sem qualquer inquietação de maior, admitíssemos, à revelia do senso comum, que os homens e as mulheres, bem vistas as coisas, não têm defeitos nem têm virtudes, têm sim características. Por simples benevolência, às características que nos agradam chamamos então virtudes, às que nos incomodam, por costume ou má vontade, chamamos defeitos. Sobra daqui um grande problema: que imperial acuidade nos leva à distinção em que somos pródigos?

E sobre nós, qual a bitola, qual a acuidade?

Quem é que não sabe – quem? – que não se deve confiar em quem nos diga coisas do género: «eu cá sou muito sincero» ou «eu sou uma pessoa muito simples»?

E não é apenas por bem sabermos que ninguém é bom juiz em causa própria, nem por olharmos o louvor de quem a si se louva como vitupério, mas sobretudo porque a psicologia prática nos ensina, por um lado, que do que nos é natural nos não damos conta e, por outro, que quem simples se julga complicado é; depois, que quem se declara sincero, por norma, desconhece o que isso seja. Em contrapartida – se nos quisermos autoanalisar – constataremos que os defeitos que apontamos aos outros nos assentam como luva. Nesta conformidade, talvez devêssemos tomar como princípio que todos os nossos relacionamentos estão sujeitos a projeções e reflexos dum compósito jogo de espelhos. Como não temos capacidade para conhecer o outro por si próprio – tomáramos nós conhecer a nós mesmos! – inventamo-lo à nossa imagem e semelhança, pondo no altar aqueles que amamos e remetendo para o inferno os que nos incomodam. Todavia, não amamos nem odiamos para além daquilo que somos, apenas enaltecemos virtudes imaginadas para a construção da corte que nos conforta e esconjuramos o mal em nós negando ao objeto da nossa raiva ou da nossa má vontade todo o merecimento. Ora, o outro é, para o bem e para o mal, o nosso espelho. Se o quebramos, desencontramo-nos; se lhe pusermos uma moldura, virá o tédio das imagens repetidas roubar-nos a aprendizagem...

Bom seria ver no outro um lago luminoso e transparente. Um lago imenso onde os céus se refletem e a nossa emoção se retempera…

Mas talvez seja pedir demais.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

DETERGENTES E ALCOVITEIROS

Vendas Novas, 5 de Novembro de 2012

PROVAVELMENTE, foram demasiadas as vezes em que eu disse neste mesmo espaço que não existe passado nem existe futuro, tudo é o presente e que o presente se esgota no preciso momento de o dizer. Com o presente construímos memórias e esquecimentos e alimentamos desejos, esperanças e expectativas.

Isto era assim até à chegada dos estrangeirados que o povo colocou no cavalo do poder. Tenho de rever tudo aquilo em que vinha acreditando. Eu sou de mudança, não só porque alguém disse que só os burros é que não mudam, mas sobretudo levando a sério o célebre gnoma pessoano de que as pessoas inteligentes, tal como mudam de camisa também deviam mudar de opinião. Sendo eu asseadinho, não me ficaria mal ser igualmente inteligente.

Por estas e outras razões, que ninguém espere que os estrangeirados que estão no governo mudem; bom é entender-se que todas as nações foram fundadas por homens que apenas sabiam assinar de cruz e afundadas às mãos de peritos em folhas de Excel e outras extravagâncias.

Seria interessante, não fora o tanto feder, atentar-se nisto: os estrangeirados da nossa memória, isto é, do passado, foram odiados porque estavam à frente dos pensamentos, palavras e obras dos seus compatriotas; os atuais são-nos repulsivos pela sua crueldade, selvajaria e arrogância e por se terem colocado a si próprios a missão de inverter os relógios e os calendários. Eles estão apostados em levar-nos de volta ao 28 de Maio.

E tudo se passa como se nada se passasse, para além da miséria dos mesmos de sempre, que cresce para além do impensável.

Uma imprensa de recados, recadinhos, chuva no molhado e fait divers. Uma televisão preocupada com o sexo dos anjos e a substância das asas angelicais, ocupada permanentemente pelas mesmas caras – sempre as mesmas caras – de replicadores daquilo que convém dizer para que o povo ande de mansinho pelas ruas, que nós não somos gregos, já se vê.

Tão subtil que era o Marcelo, tão maquiavelicamente inteligente que já foi, tornado agora apenas mais um detergente que lava mais branco e deixando-se ultrapassar em alcovitice pelo dispensável sabão de borras de azeite daquele senhor que está como comentador da 24, mas que nada comenta, é apenas porta-voz do moribundo grupo de estrangeirados a que chamam governo. Que contentinho que ele estava a falar dos cortes FMInescos e tecníssimos em primeira mão, isto é, em primeiro desbocamento. Dentre em breve, o homenzinho, para falar desses tais moribundos que então serão cadáveres, será uma voz do além, um médio de incorporação ou coisa assim.

Cuidado, porque as mesas de pé-de-galo são muito imprevisíveis.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O TRABALHO E A MISÉRIA

Vendas Novas, 23 de Outubro de 2012

QUANDO trabalhar significa sermos conduzidos à miséria e votar é escolher quem nos vai ao bolso, é o regímen, por mais juras democráticas que faça, que se encaminha para a total deliquescência, enquanto o passado que se vinga do presente.

Quando o moralismo substitui na política a justa gestão da riqueza da nação e o justo arbítrio dos interesses para a salvaguarda da coesão social por apelos ao sacrifício redentor, temos uma nova religião instituída que prescinde do céu e nega qualquer recompensa aos bem-comportados.

Quando é assim, o povo deixa de ir à missa e só paga o dízimo sob tortura. Deixa de distinguir Deus do Diabo.

Mas o povo merece isto, porque o povo merece sempre aquilo a que não se opõe. Mesmo que muita gente grite nas praças das cidades, a maioria não grita, fica em casa a embirrar com a família, ou faz promessas aos santos dos velhos hábitos de esperar, porque cada um sabe de si e só deus sabe de todos.

Por maus hábitos e muita desatenção, os que esperam dos céus o que os céus não podem dar, veem que aqueles a quem batem palmas enricam e que quem mais aplaude mais empobrece.

Não é uma maldição dos céus, é a justa paga da apatia; injustos seriam os céus se se deixassem comprar por quem rasteja e acende velas, como quem mete cunha a autarca bonacheirão.

Dar ao pedal é que é, para que a bicicleta se mova. Caso contrário, é esperar que o D. Sebastião desembarque para nos salvar. Não sei é como, pois deve estar bastante desconjuntado de ossadas.

Ou isso, ou vir gente armada até aos dentes partir-nos os dentes e dar a cada um meia sardinha.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

O QUE TIVER QUE SER ASSIM SERÁ

Vendas Novas, 8 de Outubro de 2012

DIZEM os populares que «o que tem que ser tem muita força», o que implica acreditar no determinismo. Dá-se até o caso de astrólogos e adivinhos dizerem que o destino está escrito nos astros, talvez por respeitarem mais os calhaus, que são os astros, do que o espírito, a vontade e a imaginação dos humanos e dos deuses.

Eu, que me habituei a acreditar que para quem crê no presente todos os destinos e todos os futuros são possíveis, por vezes fico perplexo.

Há muitos anos, conheci uma jovem que, escorregando no passeio duma rua da antiga Lourenço Marques, fraturou uma perna, coisa que acontece a muita gente. Levada para o hospital, foi engessada – coisa normal – e nos dias que se seguiram não sossegou com dores. Dores cada vez mais fortes e no hospital a dizerem-lhe que estava tudo bem. Depois, começou um cheirinho mau. Foi internada, operada e por ali ficou mais de um mês. Quando teve alta, sentia-se bem e quase não precisava das canadianas para andar. Isto até sair à rua, acompanhada do namorado e dois familiares. Aí, ao atravessar na passadeira, um carro mal governado projetou-a vários metros adiante. Fratura exposta na mesma perna e o hospital ali mesmo à mão. Voltou tudo ao princípio e a perna nunca ficou totalmente boa.

Lembrei-me disto ao ter conhecimento da morte prematura da ex-jornalista Margarida Marante, alguém a quem o mundo e a vida pareciam estender passadeiras triunfais e os fados, um curto-circuito na alma ou lá o que foi quiseram provar que o que tem que ser tem muita força.

Estava a escrever estas linhas e dependura-se-me na pantalha televisiva aquele senhor que tem a mania que é barítono e se atirou ao pote como quem pensa que o mel vai acabar – neste pormenor, provavelmente terá razão –; um senhor que é alcunhado, entre outras coisas, de primeiro-ministro, embora não seja esta a alcunha que o povo mais aprecia. Imaginei-o a dizer: «O país estava à beira do abismo, mas comigo deu um grande passo em frente». Estou ciente e consciente que ele não disse isto. Fê-lo, na verdade, mas não o disse. O que ele disse, não sei, quando ele fala já não o oiço. Aliás, não merece ser ouvido. A única coisa que mereceria ser ouvida era uma confissão pública do mal que fez a este país. Tirar a mão do nosso bolso e ir-se embora é que era.

Tinha acabado de ver o Ministro dos Impostos e, ao meu lado, alguém perguntava: «Porque será que o homem fala tão devagar?». Procurei esclarecer: «Sabe, amigo, não está ali um ser humano, trata-se de um cyborg. Sabe o que é um cyborg? Um cyborg é um ser vivo – chamemos-lhe assim – feito com tecidos humanos, de aparência humana, mas de natureza cibernética…

– Pode ser – voltou o outro à carga – mas por que é que fala tão devagarinho? Pensa que somos todos estúpidos, é?

– Não, amigo, ele fala assim porque está a fazer tradução simultânea. Tem um implante no ouvido que lhe permite ouvir permanentemente as ordens do Wolfgang Schäuble, que foi quem o mandou fabricar, e que é ministro das finanças na Alemanha…

A Alemanha está em vias de ganhar a guerra interrompida com a morte do homem do bigode ridículo. A sua substituta, sem precisar de tanques de guerra, basta-lhe o marco alcunhado de euro, gaseia-nos a todos. Podíamos atropelar a substituta do tal senhor, torpedear-lhe a moeda, despedir os empregados dela que aqui temos, mas não sei porque o não fazemos.

Por mim, faço votos que aconteça à Alemanha o que sempre lhe tem acontecido ao longo da História. Que se prove que o que tem que ser tem muita força.

E que a gente se safe, como é costume. Mas não estou nada, mesmo nada seguro.