quarta-feira, 17 de agosto de 2016

LOUVADOS SEJAM OS EXCÊNTRICOS

V. N. 17 AGO 2016

Há muita gente que se esforça por saber como são as coisas, tanta quanto a que tanto se lhe dá, mas, felizmente – e é por isso que as coisas progridem e evoluem – há uns tantos inconformistas que se interrogam por que são elas de uma maneira e não de outra. Melhor, todavia – pena serem uma raridade –, é a dádiva dos excêntricos que inventam as coisas a que a maioria não liga, mas que fazem com que os esforçados aprendam e os curiosos se interroguem.

ABDUL CADRE

terça-feira, 16 de agosto de 2016

PENAS E FALSAS PENAS

Vendas Novas, 16 AGO 2016

Vivi em dois territórios muito distantes daqui (e muito distantes entre si) onde a maioria da população era muçulmana. Em nenhum deles as mulheres usavam véu e em nenhum deles levavam chibatadas. A poligamia era a regra, o divórcio fácil, o adultério não era sujeito a mais castigo do que o repúdio. Por isso, quando oiço as lendas da NET sobre o horror muçulmano fico com muita pena por haver tanta ignorância à solta a botar discurso, eu que vivi no tempo em que as mulheres portuguesas só passavam a fronteira com autorização dos maridos e que se um pobre casasse com uma rica era como sair-lhe a sorte grande, pois a lei dizia que ele era o administrador dos bens do casal; podia até dizer «olha, dos teus bens, só te dou tanto por mês, para os teus alfinetes». Há dias, um tal Sérgio remeteu-me pelo Facebook uma foto que aludia a 200 chibatadas a uma mulher, na Arábia Saudita, que havia sido violada por um grupo de energúmenos. Não sei porquê, o Sérgio esqueceu-se de dizer que a "pena" não chegou a ser aplicada, devido aos protestos internacionais que gerou. Este jovem também se esqueceu de dizer que isto se passou há vários anos, quando era presidente dos EEUU o Bush Jr. Por que será que o moço se esqueceu? Porque é preciso que haja medo. Que tenhamos todos muito medo. Medo do outro, do feio, daquele que não tem direito à humanidade. Mas forneceu-nos um remédio para curar a sua indignação, que até seria louvável, se não rematasse a coisa com imensos disparates, desde citações bíblicas até concluir que os muçulmanos deviam ser todos mortos. Não sei se no seu decreto incluía a mulher condenada às tais chibatadas, pois, ao que parece, também ela é muçulmana. Ou a morte era só para os homens? Ódio, racismo, xenofobia dá nisto.

ABDUL CADRE

DETESTO SENTIR-ME CANSADO

Vendas Novas, 16 AGO 2016

Detesto sentir-me cansado. Quando era jovem julgava que aqueles que se diziam cansados eram piegas ou mandriões. Hoje o corpo já me pesa, mas resolvo a coisa com uma boa soneca, o chamado ioga ibérico. Mas o pior é um outro tipo de cansaço, o cansaço de ver os jovens curvados (como se fossem velhos) à caça dos gambozinos, isto é, dos pokemons. Também me cansa a mentalidade inquisitorial que se está a instalar no mundo; petições por tudo e por nada: para impedir, para calar para proibir. Que saudades - que apenas deveria ter do futuro - quando nos muros de Paris se escrevia é proibido proibir. Outros tempos. Tempos de gente viva. Olho pela janela e entendo Fernando Pessoa no remoque aos cadáveres adiados que procriam. Aliás, já nem por isso.

ABDUL CADRE

quarta-feira, 11 de março de 2015

DESCULPEM, SOU UM ANTIDEMOCRATA FORÇADO.

Vendas Novas, 01 MAR 2015
O meu querido amigo MJC, pessoa sempre muito bem intencionada, defendeu em ESTUDO GERAL algo que não é apenas anseio seu. Quem espera do sistema o que o sistema, infelizmente, não pode dar anseia o mesmo. Eu não creio no sistema nem creio no ditado popular que diz que quem espera sempre alcança.
Bom, os comentários que lhe fiz são os seguintes:
Penso ser o único português que diz sem papas na língua que não é democrata – pelo menos em relação ao que se diz por aí que é ser democrata –, mas esta posição não se concilia com o que a maioria pensa mas não diz. Pela razão simples de eu muito amar a liberdade – e não só a minha! –, torna-se-me impossível ser democrata; a maioria dos portugueses não o é pelo diametralmente oposto. Atrás da orelha de todos nós há um salazar que murmura: uns prestam atenção ao murmúrio, outros não e há uns poucos que se indignam. Então, que ninguém se iluda: não foi salazar – assim mesmo com letra minúscula – que ultrajou a liberdade, ele não foi uma pessoa, foi um arquétipo, representou o que em nós, como povo, se requeria: pôr a liberdade a ferros e dar uns «safanões» nos que tinham a veleidade de a desejar.
O fenómeno não é muito diferente com outros povos: os russos não conseguem imaginar-se sem czar, seja ele Nicolau, Stalin ou Putin e os alemães não passam sem fazer ou fomentar uma guerra, sem dominar os outros povos, usem panzers, marcos ou euros.
O português comum (ou típico) – se é que é possível usar esta classificação – dá-se muito mal com a verdade, tem alergia à liberdade e cultiva a inveja destrutiva. É evidente que também terá qualidades apreciáveis, mas não é delas que queremos falar. E quando dizemos inveja destrutiva é para a distinguir da inveja dos saxónicos. Estes, quando vêem o vizinho com algo de novo, logo querem ter igual ou melhor; os portugueses – o português comum, claro –, não querem que o vizinho tenha. Aliás, esta é que é a verdadeira inveja, não querer ver, segundo a etimologia.
Chegados aqui, vejamos então o que é a coisa chamada de democracia. É um sistema sufragista em que o povo vota no partido A para que os do partido B não se fiquem a rir. Todavia, mesmo que os do B ficassem a rir o resultado seria o mesmo: nem os impostos baixavam nem os salários subiam. O jogo está viciado: o prémio sai sempre à banca. Afinal, político é gestor dos ganhos de quem manda e a democracia sufragista serve para criar a ilusão de que é possível mudar o paradigma em que a grande maioria das pessoas acredita com a credulidade dos simples, dos naïves e dos medrosos.
O dinheiro é deus e a sua gestão uma religião de estado que se aprende em seminários chamados Faculdades de Economia. Ai dos ateus, que o inferno espera por eles!
A Economia é apresentada às massas como se fosse uma ciência, mas não é tal, é apenas uma invenção, uma forma de fazer crer aos desprevenidos que é tão válida quanto a Qímica do Carbono ou a Biologia, quando não tem mais valor do que a «ciência de vão de escada» que se explora em chamadas de valor acrescentado como astrologia, buena dicha ou coisa assim. Em economia até o nome engana: presumir-se-ia ter por objecto gerir e suprir necessidades (economizar), quando afinal trata do consumo e da forma de lucrar com ele, de calcular quantos pobres são necessários para fabricar um rico.
A Democracia – isto a que chamam democracia – é tão enganadora quanto a religião que a sustenta e foi algo que nunca existiu, embora haja uns patuscos mencionem a Grécia antiga para efeitos justificativos. Ó lástima! Claro que era uma democracia, desde que do recenseamento retirássemos os escravos, as mulheres e os estrangeiros.
Estava mais perto da verdade o padre da minha aldeia, que, falseando a etimologia, dizia que a democracia era o governo do demo, do que os teóricos actuais e os crentes para todos os momentos que falam no governo do povo, pelo povo e para o povo. Mas o que é povo, ali o trolha meu vizinho ou o Ricardo Espírito Santo?
As circunstâncias forçam-me a não ser democrata. Os donos da coisa a que chamam democracia não me permitem ser democrata. Sê-lo-ia se fosse dono de um banco, mas de bancos só tenho uns que são de pau.
Pessoas bem intencionadas propõem que se democratize a democracia, que é assim uma coisa do jeito de chamar gatinho a um tigre ou inventar electricidade em pó. Percebo a boa intenção, mas apesar de não conhecer o inferno dizem-me que aquilo está cheiinho de bem-intencionados.
Mas sabem do que é que eu gostava mesmo? Que houvesse a cultura, o desejo e a intenção de concretizar a velha consigna jamais respeitada de Igualdade, Fraternidade e Solidariedade. Afinal, de que valeu cortar tantas cabeças?
Isto traz-me à memória uma entrevista de alguém avesso às crenças que, perguntado: mas o que é que acha do cristianismo? Respondia de imediato: acho uma óptima ideia. Quando é que está previsto que seja posta em prática?
TODAS AS DEMOCRACIAS SÃO DITADURAS.
Vendas Novas, 04 MAR 2015
Quando, faz bastante tempo, num dado chat escrevi a frase acima, caíram-me em cima teóricos aos magotes, especialmente daqueles que zurziam na minha ignorância. Expliquei, expliquei, mas não me valeu de nada.
Todas as formas de governo – por serem governo e mando – são ditaduras. Por norma, só há o costume de chamar ditadura àquela em que a classe dirigente arranja um qualquer duce para que ele, colocado num palanque, se ponha em bicos dos pés e aos berros.
Então, da tal ditadura tirânica até à ditadura democrática, o que temos é diferenças de grau, de representatividade. Na chamada democracia, todos os ricos estão representados; os que não são ricos pagam e aplaudem. Os pobres, iludidos de que contam para alguma coisa mais do que contribuírem para que haja ricos, votam de quando em vez nos procuradores dos ricos, e isso lhes basta.
Ah! mas em democracia temos liberdade de expressão, estado de direito e coisas assim, dizem os bem-intencionados, para se autoconvencerem. Pois é, eu estava a ver, para dar vasão a tal liberdade, se comprava uma publicação jornalística assim com a tiragem do correio da manha (ou será crime da manhã?), mas fui ver o meu saldo bancário e só me dá para fazer uma assinatura. Paciência!
Haverá algum jornal sem dono, sem agenda, sem recado e sem interesse na carteira?
Estado de Direito, é assim: entro em litígio com o Belmiro Mete Medo e já se sabe, ganha quem pode e quem merece. Democraticamente, já se sabe.
Tive um professor de Processo Civil – ainda por cima dito de esquerda e figura mediática; já morreu, coitado – que dizia: esqueçam isso da verdade e da justiça, as causas ganham-se no processo. Tive um outro, em Direitos Reais – figura que ainda anda por aí, pendurada nas televisões – que dizia: na vossa vida profissional, não tendes de analisar o que é justo ou o que não é justo; quem entra no vosso consultório quer passar a perna a alguém…
Abençoados sejam, que muito me esclareceram e muito fizeram pela minha paz de espírito.
Mas é claro que há liberdade de imprensa, cada um compra o jornal – ou o pasquim – que quer.
Há um bom par de anos, um australiano, criticando a democracia do seu país, dizia assim: suponham que estão 100 pessoas numa sala, das quais só uma está sóbria. Esta pessoa, seja qual for o assunto, perderá sempre para a maioria, por mais razão que possa ter.
Claro que isto é uma caricatura que serviria a muita gente para justificar uma qualquer ditadura de déspotas esclarecidos, mas que serve aqui apenas para ilustrar a fragilidade da razão das maiorias. Veja-se aquela tropelia, aquela perversão chamada de referendo. Haverá coisa mais antidemocrática (nos termos comuns de democracia)?
Mas o pecado original das democracias sufragistas não é este. O pecado está em que se requeria que o voto fosse racional e ele só pode ser emocional. Vota-se, principalmente, por identificação. É preciso explicar o fenómeno Jardim?
Para terminar, quero esclarecer a questão dos portugueses – e eu não falei nos portugueses, mas sim no português comum (ver em Fernando Pessoa os três tipos de portugueses) –, se eu pensasse que eram de fugir, já tinha fugido. Além disso, eu nunca falo dos portugueses sem me incluir neles, não me incluo é no português comum. Mas mesmo sobre o português comum, falei das características negativas ressalvando que não queria falar das positivas. Até porque algum poderia estar a ler e ficar vaidoso, o que acrescentava mais um defeito.
PERGUNTAR É PRECISO, DEMOCRATIZAR NÃO É PRECISO
Vendas Novas, 07 MAR 2015
As ditaduras democráticas sufragistas, que abreviadamente costumam ser referidas como democracias, não podem ser democratizadas, por duas ordens de razões: uma absurda e outra totalmente consequente. A absurda é que pelo simples facto de dizermos que queremos democratizar é porque reconhecemos que esse algo não é democrático. A consequente é a que se verifica pelo facto igualmente simples de que as ditas se resolvem pelo voto e, não havendo restrições relevantes à participação nas urnas, está tudo bem, sendo isso tudo e nada mais se oferecendo, e nada mais se esperando. Depois, estando as classes possidentes francamente representadas e sendo as leis de mercado que tudo regem, então, mais uma vez, tudo está bem e quem não tenha que tenha.
Se o modo de produção das leis, de que resulta o tal estado de direito, é um subsistema e uma justificação das leis de mercado, então, e uma vez mais, tudo está bem e quem não gosta que cheire e deixe.
Se a participação dos cidadãos não possidentes é incipiente ou nula, é – supomos – porque eles são inaptos para o mercado, mesmo que lhe rezem, mesmo que tenham grandes orelhas, tipo parabólica, para captar as promessas que justificam qualquer escolha. Pois, pois, é com promessas e bolos que se enganam os tolos.
Convenhamos que, quem oiça falar os propagandistas de mercado (economistas, comentadores politiqueiros, boys para bons serviços e correlativos) fica com vontade de fugir. O problema, devido à globalização, é que não há para onde.
Mas vamos ver da legitimidade de quem é sufragado. Um filho de uma qualquer claque política, vulgo juventude partidária, depois de uns anos de pendura, de fretes, rasteiras e conspirações chega a manda-chuva da agremiação política agenciadora de empregos e negócios, vulgarmente chamada de partido. Vai a votos, ganha o concurso e os jornais dizem: retumbante vitória do mais inteligente dos inteligentes. Inteligente, não, que inteligente é na tourada. Bom, maioria absoluta, dizem os cravas do croquete, vulgo jornalistas. Mais de 50% dos portugueses votaram na sumidade!
Mentira!
Só votaram 40% dos recenseados e, portanto, a sumidade que tem maioria absoluta afinal sé tem 50% de 40%, ou seja: 20%. Isto em Portugal, porque na América é bem pior. E quem se arrepia ao aventar a hipótese de que a minoria de 20% possa mandar na maioria de 80%, que se arrepie ainda mais ao saber que os ungidos se estão perfeitamente nas tintas para os interesses e anseios de quase todos, isto é: da plebe. Ontem como hoje, manda quem pode e obedece quem deve. Ontem a porrete, hoje com pezinhos de lã, com falinhas mansas. Com chantagem, se preciso for. E se, por imponderabilidades estultas, o povo votar em quem não deva, haverá sempre maneira de corrigir o erro pernicioso, certamente que devido a falta de esclarecimento da gente ignara. Em última estância manda-se a polícia de choque
Então, seja para democratizar a democracia, seja para demonstrar como é belo o mercado, a pergunta que se impõe é se a culpa de todo e qualquer mal é do povo. Se se concluir que é, só temos uma solução, mudar de povo. Não digo demiti-lo, porque demitido já ele está há muito tempo. O povo é apenas uma figura de retórica, uma desculpa. A demissão foi-se dando à medida que o mercado foi metendo no bolso as instituições e os políticos e o povo se foi convertendo à religião castradora de dar a César o que é de César e dar a César o que é de César e dar a César o que é de César…

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

LUCY IN THE SKY WITH DIAMONDS

Cambridge, 12 SET 2014


Lucy foi o nome dado a um fóssil de australopitecos atarensis de 3,2 milhões de anos, descoberto em 1974 no deserto de Atar (Etiópia). O nome do achado foi inspirado pela canção dos Beatles Lucy in the Sky with Diamonds, que tocava com frequência no acampamento dos pesquisadores
Lucy é também – e as inspirações e conotações ali estão – o título do frenético filme de entretenimento que se exibe em Portugal, com grande afluxo de espectadores, o qual se esgota na embalagem, sendo mal empregados os actores em tal fancaria. Os ingredientes são os do costume quando não se sabe o que fazer com a ideia central: droga, máfia, polícias corruptos. Isto é receita mais do que certa para os amantes de efeitos especiais e muita acção, isto é, pancadaria.
Mas tudo isto é o menos porque serve a quem serve e gosta quem gosta. O pior é o recurso a um disparate assaz popular, apresentado como científico, que tem sido muito acarinhado pela contracultura New Age. Refiro-me àquele mito urbano que quer fazer passar a ideia de que só usamos 10% do nosso cérebro.
Esqueçamos pois o filme e debrucemo-nos apenas sobre o disparate que tanto conforto dá a quem espera que um qualquer plim o transforme em Einstein. Por curiosidade se diga – e certamente muitos se recordarão – que nos anos setenta, em Lisboa, nos acessos ao Metro, distribuíam uns papeluchos em que um Einstein com a língua de fora nos dizia: só usamos dez por cento do nosso cérebro. Estávamos no auge da propaganda da dianética, do falecido Ron Hubbard e da sua  igreja da cienciologia. Qual era a proposta desta gente? Pôr a funcionar os 90% de células mandrionas.
Christopher Wanjek, no seu livro Bad Medicine, diz muito apropriadamente que se deixássemos de utilizar 90% da nossa massa cinzenta, os neurónios inativos degradar-se-iam. Tenhamos em conta que a doença de Alzheimer se deve à perda de 10 a 20% das células nervosas.
Faz algum sentido, uma espécie desenvolver uma cabeça enorme, a qual impede a autonomia imediata ao nascer e põe em perigo a vida da progenitora, para depois utilizar apenas 10% do conteúdo de tal cabeçorra?
Sabendo-se como a natureza é avara, para quê o dispêndio energético com os inúteis 90% não utilizados, segundo as fantasias populares e os «parapsicólogos» de vão de escada?
Ao que parece, este mito resultou da conjugação de vários equívocos despoletados por uma citação de um estudo de William James, aliás inexistente, efectuada por Dale Carnegie. Depois, tendo em conta as localizações cerebrais, confundiu-se actividades que ocupariam dez por cento das funções do cérebro com permanente inactividade dos outros noventa por cento. Todavia, sabe-se hoje, sem lugar para dúvidas, mediante comprovações de medicina nuclear (tomografia por emissão de positrões TEP), que não existe em circunstância alguma qualquer inactividade de zonas cerebrais. No cérebro, tudo é acção.
Mas nesta aberração pseudocientífica nunca fica muito claro se os dez por cento se referem ao tamanho se à capacidade. É que antigamente os computadores eram enormes e tinham uma capacidade muito inferior aos portáteis mais maneirinhos do mercado. Além disso, o tamanho do cérebro não determina necessariamente a qualidade do seu desempenho, de contrário, o Homem de Neandertal teria sido mais inteligente que o homem actual e o cachalote, com o seu cérebro de sete quilos, teria batido aos pontos o Einstein, para desespero da cienciologia e outras seitas congéneres. Mesmo que quiséssemos aquilatar da coisa pela razão volume do cérebro vs. volume do corpo, de imediato nos deparávamos com o rato, que até é um bicho esperto, a ser mais inteligente do que o cavalo ou do que o cão, e bem sabemos que não é assim.
E não se prenda demasiado o cérebro à cabeça porque as aranhas, por exemplo, têm o cérebro espalhado pelo corpo, especialmente pelas pernas e as sanguessugas – imagine-se! – têm 32 cérebros.
Desta falácia, o que é de espantar é ver gente ligada ao esoterismo a abanar a cabeça que sim aos dez por cento. Então, acreditando que o homem tem outros corpos, para além do físico, um dos quais seria o mental, este serviria para quê?

Para além dos muitos artigos científicos que combatem esta crença, revistas populares como a Super Interessante, têm-no feito também. Um programa televisivo do Discovery Chanel, do qual não sou grande fã – Myth Busters (Os Caçadores de Mitos) – no episódio de 27 de Outubro de 2010, os seus apresentadores usaram a magneto encefalografia (MEG) e a ressonância magnética para formar a imagem do cérebro de alguém submetido a uma tarefa mental complicada, verificando-se que quase 100% do cérebro se encontrava em intensa actividade. Isto é algo que muitos cientistas, antes e depois, têm comprovado. Sabe-se que algo de tão simples como tocar guitarra leva praticamente a totalidade do cérebro a intervir. Não existe uma única actividade em que todo o cérebro – CEM POR CENTO – não participe. Mesmo que estejamos a dormir, o cérebro não dorme. Aliás, o cérebro não é sujeito. Não se pode dizer que o cérebro pensa, o cérebro não pensa, quem pensa são as pessoas. Do mesmo modo, as pernas não andam, nós é que andamos, movimentando as pernas. Não se pode confundir aquele que age com as formas e os meios de agir.
AC

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

MILAGRES

«A prática devocional nada mais é do que servir os outros. Nada tem a ver com desfiar o terço, com a reza ou com o hábito»

Saadi

(Versão portuguesa de Abdul Cadre)

Recuso-me a fazer parte daqueles supersticiosos que, quando estão gravemente doentes, vão ao médico e vão a Fátima: se se curam, foi milagre, se pioram é negligência médica. Mas, em boa verdade e sem falsa modéstia, não sei nem poderia saber se há ou se não há milagres, mas se os houver, então o Cosmos é bem mais iníquo do que o imaginam os azedos e os pessimistas.

Ora, os crédulos e sobretudo aqueles que o sendo ou não sendo lucram com haver crédulos, querem fazer crer aos que não são uma coisa nem outra que um Deus de humores variáveis e instável disposição altera as regras estabelecidas de acordo com a cara do freguês ou com as pedinchices e os empenhos metidos aos deuses menores, que são os santinhos de altar, tidos como mediadores seguros destas coisas. Neste politeísmo vulgar, anacrónico e abstruso, a gente reza um qualquer responso, acende umas velas e é trigo limpo: de imediato as coisas, em vez de caírem para baixo, passam a cair para cima.

Bom, isto é a modos como antigamente – lembram-se? – quando íamos a uma repartição e metíamos uma verdinha na mão do funcionário: «trate lá da coisa que eu não me esqueço de si». Bendita cunha!

Milagres? Que heresia!

A arbitrariedade, o nepotismo, o favorzinho transportados para a credulidade e a superstição constroem a insustentável crença num Deus caprichoso e subornável, confundível com um qualquer pequeno ou grande ditador, mesmo que na figura mínima de um simples manga-de-alpaca.

E há até – vejam bem! – os crentes de milagres do avesso, que são as desgraças e as catástrofes. Nestes casos, a cunha é para que se safem os que pedincham; o mal dos outros, sendo ou não castigo merecido por pecados cometidos, é com toda a certeza a vontade de Deus, que poderá estar a escrever direito por linhas tortas.

Assim – e espero que assim não seja – entre o Deus das cunhas e o Diabo sedutor haja malvado que escolha e esperto que lucre…

A minha escolha é que por mais que à minha volta aconteçam coisas maravilhosas e inexplicáveis, não as tentarei entender pelo recurso à minha ignorância, antes procurarei encontrar as razões, as causas e as leis propiciatórias das maravilhas, tendo em vista salvá-las do capricho, da arbitrariedade e inclusive do acaso.

ABDUL CADRE

NB:

Saadi é o pseudónimo do grande poeta persa do século XIII Musharrif Od-Dîn Sa'adi

quarta-feira, 24 de julho de 2013

PRESIDENTE VS. PRESIDENTA

 

Há o politicamente correcto – que tem a ver com a prática pública da hipocrisia – e há o estupidamente incorrecto, que além de ter a ver com a referida hipocrisia, tem sobretudo a ver com a ignorância militante e o sentido de andar na onda.

Provavelmente, isto aplica-se à generalidade dos povos e culturas, mas como com o mal dos outros podemos nós bem, bom seria preocuparmo-nos com o que a nós, portugueses, diz respeito.

Ora, não precisaríamos de realçar – no entanto faz sempre jeito lembrar – o quanto os palradores televisivos odeiam a língua portuguesa e o quanto, simetricamente, amam o americanês. É por isto que, quando se trata de pronunciar palavras de outras línguas, é vê-los a espremerem-se para americanamente lhes darem uma certa tonalidade de grupo de rock.

Falaremos disto noutra altura. Por agora, como a «presidenta lá dos brasis», quer boas quer por más razões, anda muito destacada nos MEDIA (como se diz em português) – e também nos mídia (como se diz em americanês) – queremos pôr em evidência a descabida controvérsia do presidenta vs. presidente.

As feministas e os feministas pós-modernos adoram dar nas vistas, de modo a que ninguém lhes aponte máculas que ponham em dúvida serem o que dizem ser. É como aqueles que, para não parecerem racistas, ao referirem-se a uma pessoa de raça preta dizem que é africano (ou africana) mesmo que tenha nascido em Coimbra, negando a africanidade aos brancos nascidos no continente que chamam negro, vá lá saber-se porquê.

Sobre a tal coisa da «presidenta», o que me faz dar voltas ao miolo é ter-se posto de moda falar de o poeta e da poeta e a palavra poetisa ter sido arquivada nos esconsos do esquecimento. Coisas. Feitios.

Bom, mas entremos no que importa. Faz tempos, o meu querido amigo e confrade das lides literárias Lauro Portugal remeteu-me um belíssimo texto demonstrativo da incorrecção de «presidenta» e do inverso quanto a presidente. Esse texto perdeu-se por aqui num emaranhado de ficheiros, mas por importante que seria transcrevê-lo aqui, trago uma compensação, um outro texto, todavia menos elaborado, cujo autor desconheço, mas que tem a mesma pertinência.

«A jornalista Pilar del Rio costuma explicar … … que dantes não havia mulheres presidentes e por isso é que não existia a palavra presidenta... Daí que … diga insistentemente que é Presidenta da Fundação José Saramago e se refira a Assunção Esteves como Presidenta da Assembleia da República.

»… Escutei Helena Roseta dizer, retorquindo a comentário de um jornalista da SICNotícias, muito segura da sua afirmação: “Presidenta!”.

… … … …

»A presidenta foi estudanta? Existe a palavra: PRESIDENTA? Que tal colocarmos um "BASTA" no assunto?

»No português existem os particípios activos como derivativos verbais. Por exemplo: o particípio activo do verbo atacar é atacante, de pedir é pedinte, o de cantar é cantante, o de existir é existente, o de mendicar é mendicante...

»Qual é o particípio activo do verbo ser? O particípio activo do verbo ser é ente. Aquele que é: o ente. Aquele que tem entidade. Assim, quando queremos designar alguém com capacidade para exercer a acção que expressa um verbo, há que se adicionar à raiz verbal os sufixos ante, ente ou inte. Portanto, a pessoa que preside é PRESIDENTE, e não "presidenta", independentemente do sexo que tenha. Diz-se capela ardente, e não capela "ardenta"; diz-se estudante, e não "estudanta"; diz-se adolescente, e não "adolescenta"; diz-se paciente, e não "pacienta". Um bom exemplo do erro grosseiro seria: "A candidata a presidenta comporta-se como uma adolescenta pouco pacienta que imagina ter virado eleganta para tentar ser nomeada representanta. Esperamos vê-la algum dia sorridenta numa capela ardenta, pois esta dirigenta política, dentre tantas outras suas atitudes barbarizentas, não tem o direito de violentar o pobre português, só para ficar contenta"».

Ora aí está e bom proveito.

ABDUL CADRE