Aprendam a não se excitarem com as notícias que são feitas precisamente com esse fim, porque essa coisa de comunicação social foi chã que já deu uvas e o que dá lucro a essa instância corruptora é a excitação. É com ela, manipulando as massas, que se dá lustro ao sistema. Os cães de guarda já estavam amestrados e de coleiras de veludo quando o Serge Halimi escreveu OS NOVOS CÃES DE GUARDA. É muito apropriado que se diga, em vez de comunicação social, corrupção social. Todavia, podem ler-se os pasquins sem sujar a mente. Por exemplo, procurar saber da intenção desta ou daquela notícia ou, melhor ainda, se lerem - será possível - o grande corruptor crime da manhã (ou correia da manha, como se lê na NET), basta este cuidado: onde eles escrevem preto deve-se ler branco, e vice versa.
quinta-feira, 18 de agosto de 2016
quarta-feira, 17 de agosto de 2016
LOUVADOS SEJAM OS EXCÊNTRICOS
V. N. 17 AGO 2016
Há muita gente que se esforça por saber como são as coisas, tanta quanto a que tanto se lhe dá, mas, felizmente – e é por isso que as coisas progridem e evoluem – há uns tantos inconformistas que se interrogam por que são elas de uma maneira e não de outra. Melhor, todavia – pena serem uma raridade –, é a dádiva dos excêntricos que inventam as coisas a que a maioria não liga, mas que fazem com que os esforçados aprendam e os curiosos se interroguem.
ABDUL CADRE
terça-feira, 16 de agosto de 2016
PENAS E FALSAS PENAS
Vendas Novas, 16 AGO 2016
Vivi em dois territórios muito distantes daqui (e muito distantes entre si) onde a maioria da população era muçulmana. Em nenhum deles as mulheres usavam véu e em nenhum deles levavam chibatadas. A poligamia era a regra, o divórcio fácil, o adultério não era sujeito a mais castigo do que o repúdio. Por isso, quando oiço as lendas da NET sobre o horror muçulmano fico com muita pena por haver tanta ignorância à solta a botar discurso, eu que vivi no tempo em que as mulheres portuguesas só passavam a fronteira com autorização dos maridos e que se um pobre casasse com uma rica era como sair-lhe a sorte grande, pois a lei dizia que ele era o administrador dos bens do casal; podia até dizer «olha, dos teus bens, só te dou tanto por mês, para os teus alfinetes». Há dias, um tal Sérgio remeteu-me pelo Facebook uma foto que aludia a 200 chibatadas a uma mulher, na Arábia Saudita, que havia sido violada por um grupo de energúmenos. Não sei porquê, o Sérgio esqueceu-se de dizer que a "pena" não chegou a ser aplicada, devido aos protestos internacionais que gerou. Este jovem também se esqueceu de dizer que isto se passou há vários anos, quando era presidente dos EEUU o Bush Jr. Por que será que o moço se esqueceu? Porque é preciso que haja medo. Que tenhamos todos muito medo. Medo do outro, do feio, daquele que não tem direito à humanidade. Mas forneceu-nos um remédio para curar a sua indignação, que até seria louvável, se não rematasse a coisa com imensos disparates, desde citações bíblicas até concluir que os muçulmanos deviam ser todos mortos. Não sei se no seu decreto incluía a mulher condenada às tais chibatadas, pois, ao que parece, também ela é muçulmana. Ou a morte era só para os homens? Ódio, racismo, xenofobia dá nisto.
ABDUL CADRE
DETESTO SENTIR-ME CANSADO
Vendas Novas, 16 AGO 2016
Detesto sentir-me cansado. Quando era jovem julgava que aqueles que se diziam cansados eram piegas ou mandriões. Hoje o corpo já me pesa, mas resolvo a coisa com uma boa soneca, o chamado ioga ibérico. Mas o pior é um outro tipo de cansaço, o cansaço de ver os jovens curvados (como se fossem velhos) à caça dos gambozinos, isto é, dos pokemons. Também me cansa a mentalidade inquisitorial que se está a instalar no mundo; petições por tudo e por nada: para impedir, para calar para proibir. Que saudades - que apenas deveria ter do futuro - quando nos muros de Paris se escrevia é proibido proibir. Outros tempos. Tempos de gente viva. Olho pela janela e entendo Fernando Pessoa no remoque aos cadáveres adiados que procriam. Aliás, já nem por isso.
ABDUL CADRE
quarta-feira, 11 de março de 2015
DESCULPEM, SOU UM ANTIDEMOCRATA FORÇADO.
sexta-feira, 12 de setembro de 2014
LUCY IN THE SKY WITH DIAMONDS
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
MILAGRES
«A prática devocional nada mais é do que servir os outros. Nada tem a ver com desfiar o terço, com a reza ou com o hábito»
Saadi
(Versão portuguesa de Abdul Cadre)
Recuso-me a fazer parte daqueles supersticiosos que, quando estão gravemente doentes, vão ao médico e vão a Fátima: se se curam, foi milagre, se pioram é negligência médica. Mas, em boa verdade e sem falsa modéstia, não sei nem poderia saber se há ou se não há milagres, mas se os houver, então o Cosmos é bem mais iníquo do que o imaginam os azedos e os pessimistas.
Ora, os crédulos e sobretudo aqueles que o sendo ou não sendo lucram com haver crédulos, querem fazer crer aos que não são uma coisa nem outra que um Deus de humores variáveis e instável disposição altera as regras estabelecidas de acordo com a cara do freguês ou com as pedinchices e os empenhos metidos aos deuses menores, que são os santinhos de altar, tidos como mediadores seguros destas coisas. Neste politeísmo vulgar, anacrónico e abstruso, a gente reza um qualquer responso, acende umas velas e é trigo limpo: de imediato as coisas, em vez de caírem para baixo, passam a cair para cima.
Bom, isto é a modos como antigamente – lembram-se? – quando íamos a uma repartição e metíamos uma verdinha na mão do funcionário: «trate lá da coisa que eu não me esqueço de si». Bendita cunha!
Milagres? Que heresia!
A arbitrariedade, o nepotismo, o favorzinho transportados para a credulidade e a superstição constroem a insustentável crença num Deus caprichoso e subornável, confundível com um qualquer pequeno ou grande ditador, mesmo que na figura mínima de um simples manga-de-alpaca.
E há até – vejam bem! – os crentes de milagres do avesso, que são as desgraças e as catástrofes. Nestes casos, a cunha é para que se safem os que pedincham; o mal dos outros, sendo ou não castigo merecido por pecados cometidos, é com toda a certeza a vontade de Deus, que poderá estar a escrever direito por linhas tortas.
Assim – e espero que assim não seja – entre o Deus das cunhas e o Diabo sedutor haja malvado que escolha e esperto que lucre…
A minha escolha é que por mais que à minha volta aconteçam coisas maravilhosas e inexplicáveis, não as tentarei entender pelo recurso à minha ignorância, antes procurarei encontrar as razões, as causas e as leis propiciatórias das maravilhas, tendo em vista salvá-las do capricho, da arbitrariedade e inclusive do acaso.
ABDUL CADRE
NB:
Saadi é o pseudónimo do grande poeta persa do século XIII Musharrif Od-Dîn Sa'adi
