domingo, 11 de março de 2018

SÓ A BRINCAR SE PODE SER SÉRIO. PATRÕES, BANDIDOS, POLÍCIAS E PADRES NÃO BRINCAM.

Há um ror de tempo, caíram-me nas mãos dois encantos, que devorei várias vezes de fio a pavio: Os Contos do Gin Tónico e Os Novos Contos do Gin Tónico, do Mário-Henrique Leiria.

Dirão alguns que conheçam, sobretudo se conhecerem mal: brincadeira, coisas de rir, coisas pouco sérias, ausência de estímulo à inteligência e outras coisas comuns aos que sofrem de burocracia cerebral. Eu estou nos antípodas, felizmente, embora possa ser suspeito por muito ter alinhado com o non sense, o surrealismo e o dadaísmo.

Sabem a origem de dadaísmo? Vem de dádá, que é a primeira palavra que os bebés pronunciam, para desespera as mães, que dizem para os rebentos: não é assim, diz papá, diz mamã…

Provavelmente, os que se incomodam e deploram estas correntes sentem-se mais confortáveis com a pseudoliteratura do escrevedor a metro, aquele que faz um sorriso matreiro quando lhe chamam o Dan Brown português, ou aquela senhora descritora de alcova, que não recordo o nome e não acredita em coincidências.

São feitios.

Com tanta coisa de valer a pena, para as quais a vida nos não vai dar o tempo suficiente – não contem sequer com prolongamento – algum critério selectivo seria bem-vindo.

Mas como seleccionar?

Não sei.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

CONTROVÉRSIA

Muitos entendem que o mais popular dos poemas atribuídos a Bertolt Brecht (Augsburgo, 10 de Fevereiro de 1898 – Berlim, 14 de Agosto de 1956) não seja na realidade seu, mas escrito pelo pastor protestante alemão Martin Niemöller (1892-1984).

Parece que a responsabilidade de tal atribuição se deve apontar à actriz argentina de origem judaica e apaixonada de Brecht, Cipe Lincovsky (Buenos Aires 1933 - 2015), amiga da viúva de Bertolt Brecht, Helene Weigel (1900, Viena – 1971, Berlín), que recitava o poema com bastante frequência e garantia ser do famoso dramaturgo alemão, que o teria escrito em 1933, em Berlim, no seguimento do triunfo eleitoral de Hitler.

Se cotejarmos o que tem sido publicado como escrito por Niemöller e o atribuído a Brecht podemos constatar que se trata do mesmo poema, embora com grandes diferenças nos versos.

Segundo Harold Marcuse, neto do filósofo Herbert Marcuse, Niemöller apoiou a ascensão do nazismo, vindo depois a opor-se-lhe. Esta oposição valeu-lhe ser internado em Dachau, onde permaneceu entre 1941 e 1945.

O poema de Niemöller foi recitado pela primeira vez, integrado em um seu sermão, na Semana Santa de 1946, em Kaiserlautern (Alemania), que tinha por título «Que teria dito Jesus Cristo?», em referência à apatia do povo alemão perante a crueldade nazista.

Reproduzo o texto de Niemöller:

QUANDO ELES CHEGARAM

por

Martin Niemöller

“Quando os nazis chegaram

à procura dos comunistas, eu fiquei calado,

porque eu não era comunista.

Quando encarceraram os sociais-democratas,

também fiquei calado,

eu não era social-democrata.

Quando vieram à procura dos sindicalistas,

não protestei,

porque eu não era sindicalista.

Quando vieram buscar os judeus,

não soltei sequer uma palavra,

porque eu não era judeu.

Quando finalmente vieram buscar-me,

não havia mais ninguém para protestar.”

Quanto ao texto vulgarmente apresentado como de Brecht, aí vai, na versão que me parece mais plausível. Digo mais plausível porque as versões são inúmeras, quer quando atribuídas a Brecht quer quando atribuídas a Niemöller

INDIFERENÇA

“Primeiro levaram os judeus,

mas não me importou, porque eu não era judeu;

Depois, prenderam os comunistas,

mas como eu não era comunista, tampouco me importou;

Pouco depois, detiveram os operários,

mas eu, que não era operário, não me importei;

Logo de seguida detiveram os estudantes,

mas como eu não era estudante, também não me importei;

Por fim, prenderam os padres,

mas eu, que nem sequer era religioso, não me importei;

Agora que me prendem a mim, já é muito tarde.”

Como dissemos atrás, as versões deste poema são inúmeras. Quanto à autoria, é muita a controvérsia, mas inclino-me para Niemöller, pois só se conhece a versão atribuída a Brecht depois do seu regresso à Alemanha, vindo de Nova Iorque, isto é, depois de 1949. O que diz Cipe Lincovsky faz pouco sentido e falar de 1933 é falar do ano em que ela própria nasceu.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

COGITA TUTE

Vendas Novas, 4 FEV 2018

Quando alguém, muito professoralmente, diz a outro: pensa pela tua cabeça, está, sem dar por tal, a dizer a esse outro para pensar do mesmo modo que ele, porque a sentença contém um pressuposto subtil, que a cabeça pensa, coisa insusceptível de prova e, por conseguinte, é do domínio da crença.

O aviso (ou sugestão) menos incorrecto seria «pensa por ti» ou, de forma mais vaidosa, cogita tute, porque o latim dá sempre um toque tipo anel de brasão, mesmo que se viva em república.

criacionista não explica, e um darwinista muito menos, por que os machos têm mamilos, excrescências completamente inúteis. Dirão coisas, mas é como se não dissessem, porque qualquer pensamento, qualquer entendimento condicionado por um modelo fica sempre limitado pelos seus parâmetros. Habitualmente, tentarão encaixar os factos no modelo em que acreditam, mesmo que não caibam.

Michael Shermer, em um dos seus escritos – ele que é um neodarwinista – avisou-nos sabiamente que às más perguntas sucedem sempre más respostas. Segundo ele, a pergunta que se deve fazer é por que as mulheres têm mamilos, sendo a resposta evidente e inegável é que as fêmeas de mamífero têm mamilos para poderem alimentar as crias.

Aquelas excrescências nos machos devem-se ao facto de o molde arquitectónico para cada espécie ser apenas um; a natureza não perde tempo com dois, quando resolve o problema com um. Azar dos machos, que ficam com as marcas do molde.

Podemos enquadrar tudo isto na ideia de que o princípio básico da vida é feminino.

domingo, 15 de outubro de 2017

UM RECADO ÀS CENTRAIS DE REIVINDICAÇÃO

V. N. 15 OUT 2017

Aqueles que, institucionalmente, se reivindicam da representação de quem trabalha por salário sentem-se felizes e úteis a lutar – é esta a expressão – por horas de trabalho. É a semana das 40 horas, é a semana das 35 horas, mas não se ouve, ou é muito raro ouvir-se reivindicar horas de descanso, e muito menos o direito à preguiça, de que nos falava o genro de Marx.

Isto não é um exclusivo português, é assim em todo o mundo onde se reivindica sem medo do chanfalho.

É bem-sabido que os trabalhadores estão muito habituados a ocuparem-se de coisas que lhes mandam fazer. Dizia-se antigamente que quem não trabuca não manduca; hoje, alguns trabalhadores com mentalidade de escravo, vangloriam-se de serem incondicionais e exemplares amantes das lides braçais – de cuja sinceridade eu duvido –, dizendo alto e bom som coisas tão idiotas quanto esta: «o pessoal não quer trabalho, quer é emprego». Presumidamente, estes serão os mesmo que apostam no Euromilhões com o fito de mandarem à oura banda o patrão, caso se tornem milionários. Afinal, está visto, não querem trabalho e não querem emprego, querem o que todos querem, boa vida. Porque o facto é este: perante o trabalho há apenas dois géneros de pessoas: as que não gostam e as que mentem.

Mas voltemos aos que reivindicam. Como se sabe, o desemprego grassa no mundo, mas não seria assim se se diminuísse um dia na semana de trabalho e esta fosse, não de 40, não de 35, mas de 24 horas. Desta forma, o que inevitavelmente teríamos era falta de trabalhadores, coisa que contraria a lógica do sistema, que exige desemprego técnico elevado como desincentivo das reivindicações salariais.

Não pensem que estou a descobrir a pólvora nem a inventar a roda quadrada. Lembremo-nos da Península Ibérica, ao tempo da convivência entre cristãos, judeus e mouros. Nesse tempo, havia três dias em que era proibido trabalhar: a Sexta-feira, por causa dos muçulmanos, o Sábado, por causa dos judeus e o Domingo, por causa dos cristãos. E como todos os outros dias eram dia de feira, havia sempre quem dissesse: toma aí conta das galinhas, que eu tenho de dar um salto à feira para vender as cebolas.

É por tudo isto que eu detesto mentirosos, isto é, os que dizem que gostam de trabalhar.

domingo, 3 de setembro de 2017

TERAPIAS

Vendas Novas, 3 SET 2017

– De Que sofres? – Pergunta o terapeuta.

– De raiva incontida a marxistas e comunistas. Só me apetece chamar-lhes ignorantes e idiotas, mas se o faço, descobrem que eu sou democrata, mas poucochinho. Gostava de ter nascido na América, mas tive azar, nasci nesta piolheira.

O terapeuta franziu o sobrolho, balançou a cabeça como aqueles bonecos irritantes à janela dos mercedes dos patos bravos, escreveu qualquer coisa num papel e disse-lhe:

– Está aqui a terapia possível.

dia

– De que sofres?

– De angústia existencial, sinto-me comunista, mas poucochinho. O pior é que tenho uma vizinha que acha que todos os comunistas, mesmo que poucochinho, são ignorantes e idiotas. O que é que acha?

– Não acho nada, mas vou dar-lhe uma ocupação. Tome lá.

E passou-lhe a receita para a mão.

dia

– De que sofres?

– Da síndroma do homem enganado. Sofro tanto que já perdi o cabelo todo. Sinto-me social-democrata, mas sei que a social-democracia não existe; sinto-me dragão e sei que os dragões não existem; tenho consideração por toda a gente e sei que isso não serve para nada; falo e a minha voz não se ouve, porque se calhar não existe. A minha única esperança são os beijinhos e abraços do meu apoiado.

O terapeuta entregou-lhe o papelinho da praxe e ele saiu um pouco mais aliviado do consultório.

dia

– De que sofres?

– De gaguez verbal e mental, de falta de ideias, de falta de graça e falta-me o Sócrates para lhe malhar à grande. Temo perder o emprego por extinção do posto de trabalho.

Falou assim, mas não ficou aliviado. Recebeu o papelinho e saiu cabisbaixo.

O quinto paciente, que estava farto de esperar, por receio ou timidez desistiu da consulta. Leu as receitas dos outros quatro, disse que sim com a cabeça e lá foram os cinco para a Terapia Ocupacional. Bom, não é assim que lhe chama o Correio da Manha, dado andarem de candeias às avessas, prefere chamar-lhe Eixo do Mal.

domingo, 16 de julho de 2017

RELER PESSOA POLÍTICO

Vendas Novas, 16 de Julho de 2017

Fernando Pessoa considerava a Europa fruto de cinco traduções que se interpenetravam. sem resolver as contradições de tal mistura. Estas cinco tradições seriam, a seu ver a HELÉNICA, a ROMANA, A MONÁRQUICA 8OU ARISTOCRÁTICA), a NACIONALISTA e a ECONÓMICA. Na imperial romana incluía o cristianismo, e justificava não incluir uma tradição científica, porque «a ciência não é fruto do nosso arbítrio».

Dado que todas as tradições têm inevitavelmente os seus inimigos, dizia ele que a tradição helénica tem por inimigos, entre outros, «todas as formas de cristianismo e sobretudo as protestantes (por serem mais hebraicas)»; a tradição romana «tem por inimigos os humanitários»; a tradição monárquica e aristocrática «os republicanos, os monárquicos constitucionais e, entre a plutocracia, a de origem internacional, isto é, judaica»; a tradição económica teria como inimigos todos aqueles que discordam dos seus princípios fundadores: a propriedade, o capitalismo e o regime de concorrência. Não especifica taxativa e claramente quem são os inimigos do nacionalismo, mas isso colher-se-á dispersamente ao longo dos seus textos políticos, merecendo especial atenção as distinções que irá fazendo entre nacionalismo e patriotismo.

Em alguns textos, Pessoa caracteriza o patriotismo como antagonista, o que nos parece mais aplicável ao nacionalismo; iriamos até que o patriotismo tem mais de inclusivo que de exclusivo, inscrevendo-se mais no orgulho próprio do que no desprezo alheio.

A determinado passo, diz ele: «o patriotismo (…) é a base do instinto social», que ele considera o único instinto social verdadeiro, que caracteriza como «…um egoísmo colectivo, base de toda a vida psíquica», mas parece-nos que isto se aplica com mais pertinência ao nacionalismo, que é uma resultante do instinto gregário.

Com o seu particular entendimento, Pessoa conclui que o patriotismo – e nós diríamos nacionalismo – como instinto, odeia tudo o que não seja ele: «… o instinto é radicalmente antagonista» e, portanto, «a atitude normal de qualquer nação com relação às outras é o ódio…», que «…a guerra é, por conseguinte, o estado natural da humanidade, não sendo a paz mais que um estado de preparação para a guerra».

sábado, 15 de julho de 2017

A LÓGICA DO POSSIDENTE

A propósito da forma de propriedade. Fernando Pessoa, imaginou para a Ordem de Cristo um 11º mandamento, chamado de templário, que diria «os bens da terra são de todos sem serem de ninguém em particular». Pelo nosso lado, imaginamos que quando o homem aqui chegou não lhe passou pela cabeça que isto pertencesse aos dinossauros. Inventou a propriedade, não por decisão racional, mas pela força das circunstâncias; o mais bruto submeteu o mais delicado. Criaram-se relações de dependência. Nada disto foi pensado, nada disto foi racional, foi a lei básica de que é a tripa quem mais ordena.

Ao longo da História, muitos foram os homens que sonharam utopias, muitos foram os que gritaram isto não pode ser assim. As multidões chamaram-lhes loucos, o povo odiou-os do mais profundo das entranhas, porque a condição povo é ser depositário, é ser útero, é ser reserva de tudo aquilo que foi, pela simples razão de não o poder ser do que há de vir. Dizia Krishnamurti que a verdade é uma terra sem caminho. Substituamos verdade por futuro.

O peso das gerações mortas é demasiado grande para se remover de golpe. Esta é razão porque todas revoluções fracassam, no sentido de que têm um período de euforia, para logo se lhe seguir a depressão, seguindo-se a instalação do que estava antes, primeiro de forma rude, depois será mais suave ou não.

Disse Fernando Pessoa: «Uma revolução não falha nunca; as ideias revolucionárias falham sempre». Isto aplica-se como fato feito à medida à revolução bolchevique, onde a ideia era abolir a propriedade dos meios de produção e criar o homem novo. Ora, como é possível fazer um fato novo com tecido velho? Como é possível abolir a propriedade dos meios de produção, se o operário ocupa a fábrica e chama-lhe dele, isto é, substituiu-se um patrão por outro. Quem assistiu às ocupações no Alentejo sabe disto melhor do que eu, que não estava cá.

Na China, Mao Zedong inventou aquela coisa da Revolução Cultural, com o objectivo de extirpar as ideias velhas, as ideias burguesas. Todo o boçal, todo o ignorante, chegava ao pé de qualquer instruído e pendurava-lhe um cartaz ao pescoço: inimigo do povo. O povo chama sempre inimigo àquele que o quer enaltecer – é por isso que eu faço precisamente o contrário, apesar do contrário não significar resultado contrário – povo é emoção, não é razão.

O futuro da humanidade será selvático se se basear na emoção, será sombrio se se basear na razão, só é possível ser promissor pelo advento do para além da razão e da emoção, de que não falaremos por agora. Mas convém que se diga que a filosofia agostiniana do paradoxo mora ali.

A civilização é um verniz dado numa capa muito leve, um pequeno sobressalto e risca, abre fendas. Não vale a pena falar do desmoronamento da Jugoslávia, ou vale?

Falemos dos sistemas de propriedade: desde que os portugueses, com as suas navegações abriram as portas ao capitalismo e à globalização, ninguém consegue pensar por outros parâmetros nem entender outro paradigma. Farto-me de rir – com vontade de chorar, claro – quando os opinadores encartados debitam nas pantalhas televisivas a China Comunista assim e a China Comunista assado, uma China que constitui o máximo da concentração financeira e económica que o mundo já conheceu ser chamada de comunista tem muita piada. Bem andou o reformado Cavaco Silva, quando visitou a China e disse com clareza – não estava a comer bolo rei – «isto é que é um socialismo progressista. Traduzindo o Cavaco, já que o seu tradutor oficial (Graça Moura) nos deixou: Que beleza, o estado e meia-dúzia de milionários são donos de tudo, não há greves, a jornada de trabalho é a que for preciso, o salário é o que quem manda decide…

Só há um sistema produtivo no mundo: aquele que se baseia na propriedade e no dinheiro. Quem tem o dinheiro e a propriedade varia, o que não varia é ter.

Será diferente no futuro? É expectável que sim. O professor Agostinho da Silva costumava dizer que os patrões sempre defenderam os seus interesses pagando o mínimo possível aos seus trabalhadores, mas aproximava-se o tempo em que teriam de pagar aos trabalhadores sem trabalho para eles poderem comprar. É a vida. E é isto que alimenta o meu optimismo. Quando não resolvemos as coisas elas resolvem-se por si.