Este meu livro, de temática rosacruciana está de novo à disposição dos leitores
https://publish.bookmundo.pt/books/249698
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ESTRELA NEGRA A PAIRAR
Lary Lachman, no seu recente livro com
o título em epígrafe, entre muitos pressupostos envolvendo o «Pensamento Novo» –
na literatura popularizada é dito novo pensamento –, a Teoria do Cos, o realismo
fantástico e o milenarismo, recorre também a Jung e às suas teorias da sincronicidade
e dos arquétipos, e aqui sou particularmente tocado, pois é a partir destes
aportes Junguianos que tenho desenvolvido a ideia de que os grandes ditadores, com
relevo sobretudo para os carismáticos, são invocações das massas populares.
Neste referido caldo, Lachman fala-nos
da materialização das formas-pensamento que são conhecidas nos meios esotéricos
como egrégoras, assunto este largamente explanado por Blavatsky e de leitura um
pouco mais incisiva ainda em Dion Fortune, que nos falou como essas formas-pensamento
podem ser usadas para ataques psíquicos (e mesmo físicos).
Estes elementais, a que a mentalista e
viajante Alexandra David-Neel chama tulpas, podem apossar-se do seu próprio
criador e, por maioria de razão, daquele que se quer usar.
Lachman, mais inclinado para a
possibilidade de serem os ditadores, consciente ou inconscientemente, a criarem
os seus tulpas, que deles logo se apoderam, a páginas tantas interroga-se assim:
«Será o próprio Trump um tulpa ou egrégora,
gerado pela sua base de apoio?»
A minha resposta é que é essa a minha
convicção, seja o Trump, seja o Estaline ou o Hitler., salvas as devidas
proporções, evidentemente.
Há muito tempo que eu me debruço sobre
esta capacidade psíquica e desenvolvi a ideia de os líderes – não confundir com
capatazes e vulgares tiranetes –, para o bem e para o mal serem o resultado dos
desejos dos seus seguidores e apoiantes. Os tiranetes limitam-se a tirar
vantagem da cobardia e espírito gregário dos que se submetem; os líderes
carismáticos, os grandes ditadores são fruto da invocação das massas, são tulpas
poderosos construídos sobretudo pelo pior que há nas massas, e a energia mais
eficaz para a edificação de um tulpa é a dos instintos primários dos seres
humanos.
Pergunta-se, não haverá tulpas
benevolentes criados pelas massas?
Em teoria, sim. Pensemos na egrégora Jesus,
criada pelos crentes visando a protecção e o amparo de todos e de cada um, mas
chegado a um certo nível energético tornar-se–á autónomo, mas não tão autónomo
que não possa assimilar o ódio dos seus criadores, como aconteceu em épocas
negras. Como os invocadores se dividem, a egrégora passa a ser multifacetada,
plural, enfraquecendo. A parte mais animalesca das massas tem um poder de
invocação maior do que a mais evoluída e a apatia da maioria facilita o
trabalho nefasto das forças ctónicas.
Nascemos de borla e toda a vida é feita a pagar as facturas do destino, seja o destino aquilo que for, determinado ou em construção. É assim com os indivíduos, com os grupos, com as nações, com a humanidade. É assim porque não pode ser assado, como diria o César Monteiro.
Não é preciso ser filósofo, psicólogo nem sociólogo para entender o modo de ser do nosso povo: está tudo no Pátio das Cantigas. Portugal é um pátio das cantigas e o Evaristo casa a filha com o marçano só para os outros não se ficarem a rir.
Os mais avisados, aqueles que não tendem a fazer «mééé», devem perceber que há sempre uma factura por pagar. Por exemplo, quem se ilude paga a factura da desilusão. Então, é de bem-avisado nunca nos iludirmos, e não escapamos à conta substituindo uma ilusão por outra.
As pessoas sensíveis estão muito tristes com a ascensão do carroceiro chegano, mas, se não fossem susceptíveis a iludirem-se, saberiam que atrás da orelha de cada português há um Salazar que sussurra. Isto não seria grave, se não ligassem ao sussurro. Haverá, porventura, quem não tenha ouvido no espaço público bolçar vómitos do género: «o que aqui faz falta é um Salazar»?
Quem nunca ouviu é porque é muito desatento; eu cheguei a ouvir: «isto só lá vai com dez salazares, que um já não chega».
Mas conto-lhes um segredo – que já não é segredo porque o tenho escrito muitas vezes – O Salazar nunca existiu e o chegano Desventureiro também não existe. Para entenderem melhor o que quero dizer, é aconselhável visitar (ou revisitar) a teoria dos arquétipos, de Carl Jung. Também ajudará perceber a psicologia de Gurdjieff.
Salazar é, pois, um arquétipo que um grupo de pessoas pode invocar, sintonizando-se com uma dada forma de ser. Os religiosos que não fiquem ofendidos, mas quando se retira dos Evangelhos que Jesus teria dito: quando vos reunirdes em meu nome eu estarei presente, é também disto que estamos a falar. Em termos metafísicos e teosóficos digamos nós que Jesus e Salazar são «elementais», isto é, habitantes da nossa mente. Os nossos sentimentos – sejam baixos ou elevados – são susceptíveis de materializações; quando em invocações colectivas podem ser observados, e os participantes desse ritual ficam despidos de individualidade, podendo ser conduzidos para actos animalescos, actuando como as abelhas que julgaram em perigo a sua colmeia.
Dizia Gurdjieff que só dez por cento dos humanos se encontram despertos, concluindo que os outros noventa por cento estariam adormecidos, mas aqui eu acrescento um ponto: há outros dez por cento que acordaram o demónio que há em si; não despertaram nem são susceptíveis de o ser. Estes, em termos religiosos, dir-se-ia que entregaram a alma ao demónio; são escravos do id freudiano, regem-se pelo princípio do prazer através dos mais baixos instintos, chegando a sentir prazer na dor que produzem e inclusive na que sofrem.
Estes dez por cento de filhos do pesadelo – e a percentagem será mais ou menos esta em toda a parte – tendem à actividade ruidosa e agitada das colmeias e dos formigueiros.
Se forem dez por cento, o partido dos cheganos tem ainda muito por onde crescer em termos eleitorais, basta que o seu arquétipo, o seu elemental lhes fale alto e bom som ao pior que os habite.
Havia um pastor que tinha dois cães. Um era uma fera terrível, o outro uma doçura. Não os podia juntar. Mas ele sabia que podia resolver o problema, bastava não alimentar um deles; se os juntasse, então, a fraqueza de um seria a vitória do outro.
"(…) Claro que sou cristão, e outras coisas, por exemplo budista, o que é, para tantos, ser ateísta; ou, outro exemplo, pagão. O que, tudo junto, dá português, na sua plena forma brasileira. (…)"
- Agostinho da Silva
É evidente que Agostinho da Silva tinha toda a autoridade moral para se dizer cristão, sendo que sê-lo não impediria a sua liberdade para tudo o mais que quisesse ser. Dizer-se católico – de cuja comunidade fora excomungado – é que seria mais paradoxal, já que o catolicismo implica (exige), mais do que qualquer outro culto, a exclusão, afirma-se pela exclusão: o nós temos a verdade e os outros vivem na mentira. Foi esta arrogância, este fanatismo que, por exemplo, esteve na base da nossa expulsão do Japão. Portugal, ao longo da sua história, raramente conseguiu uma correspondência frutuosa entre o povo comum e as suas elites, questão infinitamente agravada em relação às classes dirigentes. Ontem como hoje e hoje bem mais grave do que nunca. Atenção que eu digo correspondência frutuosa, não digo falta de correspondência. Por exemplo, o Salazar, que não veio de Marte (penso eu), bem vistas as coisas era um arquétipo de um certo modo de ser português. A versão decadente e democrática deste arquétipo – e por ser democrática é plural – transparece em três promotores desta apagada e vil tristeza: Cavaco Silva, Passos Coelho e Paulo Portas, a troica da troica.
Agostinho da Silva, encarado como o arquétipo daquilo que o português tem de melhor, tinha do nosso povo uma esperança saudosa que talvez não levasse em conta o que a miséria pode fazer ao povo de uma nação. Não digo a pobreza, digo a miséria.
Uma das coisas mais interessantes de verificar é que, sob o ponto de vista religioso, o povo comum tem-se mostrado invariavelmente pagão e politeísta, com especial culto à Deusa-mãe, culto este ocultado sob o disfarce de culto mariano. As elites não. Estas, apesar de serem acentuadamente estrangeiradas, materialistas e ateias, sempre usaram a religião oficial sob dois aspectos relevantes: atestado de bom comportamento moral e arma ideológica de dominação e privilégio. Como exemplo paradigmático temos aquele banqueiro do aguenta-aguenta, que se afirmava católico, não sei se através dos bem abençoados pobres de espírito se da história do camelo que passa no buraco da agulha. E tem também aquele gordalhudo do não há almoços grátis, que se afirmava militante católico e usava o seu caritatismo para perorar alto e bom som que os reformados andam para aí a fingir que eram pobres.
Eu sei, eu sei que o Covid não é um bicho, é uma coisa assim-assim, que não é carne nem peixe. Seja lá o que for, pica no umbigo e desperta nas pessoas o que elas têm de pior e de melhor. Desperta a solidariedade, que é muita e desperta o egoísmo, que é imenso. Mas desperta também coisas bem mais doentias, como a raiva e o desprezo pelos outros.
Mas os maus sentimentos, no tempo do politicamente correcto, disfarçam-se o mais que se pode de saberes que se não têm e faz-se de conta que sim; de juízes de intenções, em que os outros têm só defeitos e nós apenas qualidades. Por isso, esta gente de carácter diminuído arranja bodes expiatórios para as suas frustrações e azedumes. Normalmente os que estão mais à mão são os políticos e as pessoas que têm de tomar decisões de protecção social.
Um destes azedos postadores de dizeres de falsas sapiências dizia por aqui: querem submeter-nos, obrigando-nos a usar máscaras, roubar-nos a liberdade, porque a máscara não serve para nada; são incompetentes e querem é dar dinheiro a ganhar aos laboratórios. Esta gente não se apercebe que quando fala assim é como se estivesse estendido no divã do psicanalista confessando as linhas que tecem o seu carácter. O seu mau carácter.
E há muita gente a berrar: então se as máscaras protegem, para que é o distanciamento social?
Eu fazia um boneco para lhes explicar, mas se calhar nem mesmo assim percebiam. Digam lá, têm algum método eficaz para partilhar connosco ou só se sentem bem dizendo mal. Tenham cuidado, não mordam a língua.
Eu sei de um método que acabava com a pandemia e exterminava o vírus sem medicamentos, sem vacinas e sem a tal imunidade de grupo. Congelava-se toda a humanidade – mas mesmo toda – durante um mês, tudo paradinho como se tivesse chegado o fim do mundo e pimba, matava-se o bicho, porque ele só vive se tiver quem o alimente e transporte.. Aqui tenho de dar razão aos maledicentes: os malandros dos políticos não me querem ouvir, são uns incompetentes. Quem não faz aquilo que nós imaginamos que é bom é porque é mau, incompetente e tudo o mais que se diga, porque é preciso é dizer coisas, mesmo que sejam muito estúpidas. E qualquer um de nós, desde que tenha telefone ou computador e ligação à NET é um sábio potencial com capacidades ilimitadas de chamar nomes feios aos outros, principalmente aos políticos de que não gostamos, porque os cá dos nossos são uns gajos porreiros.
Então – e isso é que importa – as máscaras servem de protecção ou não servem? Servem e não servem. Depende. Só há segurança absoluta no distanciamento social, não tocando no que quer que seja que tenha sido tocado por outros, o que é praticamente impossível. Usar máscara e coçar o nariz com os dedos infectados no manuseamento de objectos é tiro e queda. O mau uso da máscara pode até ser um factor prejudicial, mas a máscara é essencial em espaços fechados, e estes espaços devem ser higienizados e ventilados permanentemente. A máscara não visa a nossa protecção (só em parte), mas sim a protecção dos outros, não contaminarmos os outros. Mas o mais importante é não andarmos à molhada. Não é preciso fazer um boneco… ou é?
Vou partir do princípio que alguns – e apenas alguns – daqueles que barafustam contra as máscaras anti contaminação são pessoas honestas e que fazem isto por se encontrarem assustados e frustrados com a presente situação pandémica. Mas não lhes desculpo serem macacos de imitação dos conspiranóicos e das milícias digitais que sabem bem o que fazem de mal.
Portanto, isto que aqui digo é só para alguns, para os honestos, porque os idiotas, doentes de conspiração e militantes digitais para um mundo pior merecem apenas o meu repúdio e o meu desprezo.
O argumento de que a máscara social é um factor de submissão inserido numa estratégia tenebrosa, se saído de um sentir autêntico é sintoma que precisa de atenção psiquiátrica. Mas, quando consultarem o psiquiatra, façam o favor de deixar em casa, ou deitarem fora, o telemóvel que usam para bolçar essas aleivosias. Haverá maior submissão, mais do que pagar impostos? Não paguem impostos. Haverá maior submissão do que respeitar os sinais de Trânsito? Haverá maior submissão do que ter de pagar multa por estacionar em cima do passeio? Não respeitem, não paguem. Haverá maior submissão do que respeitar as leis? Não respeitem e, já agora, façam o favor de ir para uma ilha deserta, se houver ilhas desertas sem rei nem roque.
Quem vive em sociedade adere a um contrato social de aplicação genérica que não se desenha à vontade do freguês. Esta adesão implica direitos e deveres. Os deveres, evidentemente, diminuem as liberdades e estas diminuições são compensadas pelos direitos, que são reformulações das liberdades e alicerces da segurança.
Esqueceram estas coisas básicas que terão aprendido no secundário? Bom, se nunca andaram na escola estão perdoados. Estou a ouvi-los perfeitamente, não resmunguem, é evidente que a escola é submissão, paciência, os malandros que a inventaram não querem que tenhamos a liberdade de nos submetermos à ignorância, e a ignorância é o nosso direito de sermos macacos. E a despropósito: já fez a sua tatuagem hoje? Ontem vi um filme de cowboys e estavam uns tipos com uns ferros em brasa a tatuar gado.
E se em vez de submissão víssemos a máscara social como um sinal de respeito pelo outro? Só não respeita o outro quem nasceu com o rei na barriga e olha o seu umbigo como o centro do mundo.